Um capítulo pouco conhecido da história do Brasil começou a ganhar novos desdobramentos após pesquisas identificarem registros financeiros de pessoas escravizadas no século 19 em arquivos da Caixa Econômica Federal. Os documentos indicam que valores depositados por escravizados podem ter sido utilizados na tentativa de compra da alforria antes da abolição da escravidão, em 1888.
Até o momento, o Ministério Público Federal localizou 158 cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas no acervo histórico do banco público. A investigação busca agora ampliar o levantamento e identificar a dimensão total dos recursos movimentados na época.
Segundo o MPF, a Caixa deverá fornecer informações detalhadas sobre os chamados “livros de conta corrente”, que registravam depósitos, saques e rendimentos de juros feitos por pessoas escravizadas.
A hipótese investigada é que parte desses valores tenha permanecido sem destinação conhecida após a abolição da escravidão no Brasil.
Documentos ocupam cerca de 15 quilômetros
O acervo histórico que será analisado reúne documentos produzidos ao longo de toda a história da Caixa. De acordo com pesquisadores envolvidos no levantamento, se os arquivos fossem colocados lado a lado, ocupariam cerca de 15 quilômetros de extensão.
A historiadora Keila Grinberg, que participa das pesquisas, afirma que o trabalho envolve etapas como catalogação, digitalização e análise dos registros históricos.
Segundo ela, ainda não há estimativa sobre quantas contas foram abertas por pessoas escravizadas antes da abolição, nem sobre o destino final dos recursos depositados.
Estudo aponta apagamento histórico
Pesquisadores e especialistas em história da escravidão afirmam que o levantamento ajuda a romper o silêncio histórico sobre a população negra no Brasil.
O historiador Itan Cruz Ramos, da Universidade Federal da Bahia, avalia que parte das dificuldades para localizar documentos históricos está relacionada ao apagamento da memória da escravidão no país.
Segundo ele, muitos registros foram perdidos, degradados ou deixaram de ser organizados ao longo do tempo, dificultando a reconstrução da trajetória econômica e social da população negra após a escravidão.
Fundo criado para emancipação desapareceu dos registros
O historiador também cita estudos sobre o chamado fundo nacional de emancipação, criado após a Lei do Ventre Livre, em 1871, para auxiliar pessoas escravizadas na conquista da liberdade.
De acordo com pesquisas acadêmicas, os recursos acabaram sendo desviados de sua finalidade original e passaram a financiar a importação de mão de obra europeia para lavouras de café no Brasil.
Após a abolição, o fundo deixou de aparecer nos registros públicos. Na época, os valores acumulados superavam o orçamento de alguns ministérios do Império.
Caixa afirma colaborar com investigação
Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que tem colaborado com o Ministério Público Federal e afirmou que entregou as informações solicitadas dentro do prazo estabelecido.
O banco destacou ainda que mantém equipes multidisciplinares voltadas à conservação, guarda e pesquisa de seu acervo histórico.
A instituição também declarou que possui políticas de promoção da igualdade racial e de combate ao racismo.
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