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Da exposição ao deepfake: como vídeos íntimos podem virar arma política em campanhas eleitorais

Casos envolvendo políticos e candidatos mostram como vazamentos de conteúdos íntimos podem afetar campanhas, gerar crises de imagem e reforçar diferenças na forma como homens e mulheres são julgados.

Por Estado do Pará Online
10/08/2026 às 14:03 • 9 min

Foto: Reprodução/Canva

O uso de vídeos íntimos, reais ou manipulados, como instrumento de desgaste político não é novidade, mas ganhou uma nova dimensão com o avanço das redes sociais e da inteligência artificial. Em diferentes eleições, candidatos e detentores de cargos públicos se viram obrigados a responder não apenas a debates sobre propostas e alianças, mas também à repercussão de conteúdos relacionados à vida privada.

Os episódios envolvendo João Doria, a prefeita de Marituba, Patrícia Alencar, o candidato ao Governo do Pará, Dr. Daniel, e a candidata a vereadora no Rio de Janeiro, Letícia Arcenio, mostram como a exposição da intimidade pode mudar a agenda de uma campanha, provocar crises de imagem e deslocar o debate político para a vida pessoal dos candidatos.

Para Flávia Ribeiro, jornalista e pesquisadora das interfaces de raça e gênero na Comunicação, o impacto desses episódios não é igual para homens e mulheres.

“Essa diferença revela que ainda existe uma desigualdade profunda na forma como a sociedade enxerga homens e mulheres na política”, afirma.

Segundo ela, quando um vídeo íntimo envolve um homem, a repercussão tende a ser mais concentrada no episódio e, em alguns casos, pode até ser relativizada ou rapidamente esquecida. Já quando envolve uma mulher, a exposição pode ser utilizada para questionar sua competência, sua moral e sua capacidade de ocupar espaços de poder.

“O vazamento de imagem atua como uma espécie de mecanismo de controle sobre os corpos femininos”, explica.

João Doria e um dos primeiros grandes casos da era digital

Durante a disputa pelo governo de São Paulo, em 2018, um vídeo íntimo atribuído ao então candidato João Doria viralizou nas redes sociais poucos dias antes do segundo turno.

Foto: Reprodução X

Na época, Doria classificou as imagens como uma montagem, afirmou ser vítima de uma campanha de desinformação e acionou a Justiça Eleitoral para identificar os responsáveis pela divulgação.

O episódio ganhou repercussão nacional e abriu um debate sobre o uso de conteúdos manipulados como instrumento político. Anos depois, em 2022, veio a público a informação de que um laudo da Polícia Federal não identificou sinais de adulteração no arquivo analisado.

Independentemente da discussão sobre a autenticidade do material, o episódio mostrou como um conteúdo de caráter íntimo pode rapidamente deixar de ser uma questão privada e passar a ocupar o centro de uma disputa eleitoral.

O caso da prefeita de Marituba

Em 2025, a prefeita de Marituba, Patrícia Alencar, enfrentou forte repercussão após o vazamento de um vídeo pessoal em que aparecia dançando de biquíni.

Segundo a prefeita, o conteúdo havia sido compartilhado em um ambiente privado e acabou sendo divulgado fora desse contexto. Ela afirmou ter sido “traída por alguém de confiança” e classificou a repercussão como um episódio de violência de gênero e machismo.

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Embora o vídeo não tivesse conteúdo sexual explícito, o episódio ganhou dimensão política justamente por envolver uma mulher ocupando um cargo público.

Para Flávia Ribeiro, casos como esse mostram como a vida privada das mulheres pode ser utilizada para deslocar a discussão sobre sua atuação política.

Segundo a pesquisadora, enquanto a trajetória de candidatos homens costuma ser avaliada por propostas, alianças, discursos e capacidade política, as mulheres frequentemente precisam provar que são “respeitáveis, femininas, cuidadoras”.

O resultado, segundo ela, é que o debate político pode ser substituído por discussões sobre comportamento, aparência e vida pessoal.

“Em vez de discutir projetos para a sociedade, discute-se o comportamento, a aparência, as roupas da candidata”, afirma.

Dr. Daniel e a repercussão em plena pré-campanha

Recentemente, outro episódio colocou a vida pessoal de um candidato no centro do debate eleitoral. O ex-prefeito de Ananindeua e pré-candidato ao Governo do Pará, Dr. Daniel, passou a enfrentar repercussão política após o vazamento de um vídeo íntimo.

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A divulgação ocorreu durante o período de pré-campanha e rapidamente tomou conta das redes sociais. O episódio obrigou o candidato e seu grupo político a lidar com uma crise de imagem enquanto a disputa eleitoral começava a ganhar força.

O caso também permite observar uma diferença apontada por Flávia. Segundo ela, a exposição de um homem pode ser recebida de maneira diferente pela sociedade.

“O vídeo de um político traindo a esposa, por exemplo, pode até ser vantajoso para ele, afinal ele reafirma o papel que foi construido socialmente de virilidade masculina”, afirma.

Para a pesquisadora, isso ajuda a explicar por que o julgamento moral não costuma pesar da mesma forma sobre homens e mulheres.

Quando o conteúdo nem sequer é real

Se antes o principal risco era o vazamento de conteúdos reais, o avanço da inteligência artificial acrescentou outro problema: a possibilidade de fabricar imagens e vídeos íntimos de pessoas que nunca participaram da situação retratada.

Leticia Arcenio denunciou os videos à Polícia Federal

Foi o que ocorreu com a vereadora Letícia Arcenio, que teve o rosto inserido digitalmente em um vídeo íntimo produzido por inteligência artificial.

O episódio reforçou o alerta sobre os chamados deepfakes, tecnologia capaz de produzir imagens e vídeos cada vez mais convincentes. Diferentemente de um vazamento tradicional, nesse caso a vítima pode nunca ter produzido ou compartilhado qualquer conteúdo semelhante.

Para Flávia, a tecnologia pode ampliar uma forma de violência que já existia.

“A inteligência artificial e o deepfake são exemplos disso. Há a manipulação de imagens, como instrumento de humilhação e controle, como forma de dizer que há pessoas que não podem ocupar determinados espaços”, explica.

Ela afirma ainda que esse tipo de ataque pode atingir de maneira particularmente grave mulheres e outros grupos socialmente vulnerabilizados.

Denúncia: Vítimas de vazamento de imagens ou vídeos íntimos podem procurar uma delegacia e denunciar o conteúdo à plataforma onde foi publicado, solicitando a remoção. No Pará, denúncias presenciais podem ser feitas na Divisão de Prevenção e Repressão a Crimes Tecnológicos (DRCT), localizada na Travessa Coronel Luiz Bentes, bairro Telégrafo, em Belém. O telefone para contato é (91) 3222-7567.

Quando o vazamento se torna violência política de gênero

A exposição de um conteúdo íntimo, por si só, já pode representar uma violação de direitos. Mas, segundo Flávia, existe uma dimensão política quando a divulgação é utilizada deliberadamente para prejudicar a atuação de uma mulher na vida pública.

“Quando o vazamento ocorre com a intenção de constranger, intimidar, desacreditar ou dificultar a participação de uma mulher na vida pública, estamos diante de violência política de gênero”, afirma.

Nesse contexto, o objetivo deixa de ser apenas expor a intimidade. A divulgação passa a funcionar como instrumento de deslegitimação política.

A pesquisadora relaciona esse tipo de ataque a uma desigualdade mais ampla na representação política brasileira. Segundo ela, mulheres ocupam aproximadamente um quinto das cadeiras do Congresso Nacional, apesar de representarem 53% do eleitorado.

Para Flávia, a desigualdade de gênero na política acaba sendo naturalizada e também pode aparecer nas estratégias utilizadas para atacar mulheres que ocupam espaços de poder.

O papel das redes sociais

A velocidade de circulação nas redes sociais é um dos fatores que tornam esses episódios particularmente difíceis de conter. Vídeos podem ser compartilhado milhares de vezes antes que a vítima consiga explicar o contexto, negar a autenticidade ou buscar medidas judiciais.

No cenário virtual há grande dificuldade no controle de danos. Mesmo quando existem determinações judiciais para que vídeos ou imagens íntimas sejam removidos das plataformas, a medida não garante que o conteúdo seja completamente eliminado da internet. Isso ocorre porque, antes da retirada, o material pode ter sido baixado, copiado e republicado em diferentes perfis, grupos, sites e aplicativos.

Episódios envolvendo políticos, como o de Daniel e o episódio relacionado a Dória, mostram esse desafio. A remoção determinada pela Justiça pode reduzir a circulação do conteúdo em determinadas plataformas, mas não impede que o conteúdo continue sendo compartilhado. Na prática, cria-se uma espécie de efeito de reprodução, em que cada nova cópia torna mais difícil interromper completamente a disseminação.

No caso dos deepfakes, o problema é ainda maior. A aparência de autenticidade pode fazer com que usuários compartilhem o material antes de verificar sua origem.

A consequência é que a correção de uma informação falsa pode não alcançar a mesma velocidade de sua disseminação.

Uma crise que pode mudar a agenda eleitoral

Os casos mostram que vídeos íntimos podem produzir consequências que ultrapassam a vida pessoal dos envolvidos. Quando surgem durante uma campanha, eles podem alterar o discurso dos candidatos, mobilizar adversários, provocar respostas jurídicas e dominar as redes sociais.

Entre os principais impactos estão a mudança da agenda de campanha, o desgaste da imagem pública, a disseminação de desinformação, a polarização e a judicialização da disputa.

A diferença entre os casos também evidencia que o impacto não depende apenas da existência do vídeo, mas de quem aparece nele, de como o conteúdo é interpretado socialmente e da narrativa construída em torno da exposição.

Com a popularização das ferramentas de inteligência artificial, o desafio tende a crescer. Agora, além de impedir a divulgação indevida de conteúdos privados, candidatos, eleitores, plataformas e veículos de comunicação precisam lidar com uma pergunta cada vez mais difícil: como distinguir uma exposição real de uma imagem fabricada para destruir uma reputação?

Em meio à disputa eleitoral, a resposta pode definir não apenas a reputação de um candidato, mas também os limites entre vida privada, violência política, desinformação e debate público.

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