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Conheça a história do Theatro da Paz, agora reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco

Inaugurado em 1878, monumento de Belém nasceu como símbolo de modernização durante o ciclo da borracha, atravessou disputas, problemas estruturais e reformas até se tornar uma das principais casas de ópera do Brasil

Por Daniel Vinagre
27/07/2026 às 12:12 • 10 min

Foto: Secult/Pa

O Theatro da Paz, em Belém, passou a integrar a Lista do Patrimônio Mundial Cultural da Unesco nesta segunda-feira (27), ao lado do Teatro Amazonas, de Manaus. Os dois espaços foram reconhecidos conjuntamente sob a designação “Teatros da Amazônia” e se tornaram o primeiro Patrimônio Mundial Cultural da Região Norte do Brasil.

A candidatura conjunta foi formalizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, com a colaboração das secretarias de Cultura do Pará e do Amazonas. Os dois teatros já eram tombados pelo Iphan desde a década de 1960.

O Theatro da Paz carrega uma história marcada pela riqueza gerada pela exportação da borracha, pelo desejo de modernização da capital paraense, por disputas políticas e técnicas e por sucessivas transformações que definiram a aparência luxuosa preservada até hoje.

Foto: reprodução/ Anais do Museu Paulista

Um teatro para representar o progresso

A construção de teatros, escolas, bibliotecas e museus fazia parte de um projeto político de modernização da Amazônia no século XIX. Naquele período, grandes prédios públicos eram vistos como símbolos de civilidade, progresso e ordenação urbana. O Theatro da Paz foi a primeira casa de espetáculos construída com recursos públicos no Pará. Antes dele, a administração provincial chegou a utilizar e subvencionar pequenos teatros particulares para receber companhias artísticas nacionais e portuguesas.

A escolha do local também acompanhou a expansão de Belém. A área que se tornaria a Praça da República passou por obras de aterramento e urbanização e, na década de 1860, já concentrava hotéis, bares, cafés, circos e outros espaços de diversão. A construção de um grande teatro consolidaria a região como centro cultural e social da cidade.

Do orçamento inicial à pedra fundamental

A Assembleia Provincial autorizou a construção em 1863, com previsão inicial de 150 contos de réis – entre R$ 15 milhões e R$ 18,5 milhões. Em 1868, o valor autorizado já havia subido para 400 contos – valor entre R$ 40 milhões e R$ 49,2 milhões.

A pedra fundamental foi lançada em 3 de março de 1869. O primeiro nome escolhido foi Theatro de Nossa Senhora da Paz, em referência à expectativa pelo encerramento da Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1864 e 1870. Posteriormente, prevaleceu o nome mais curto: Theatro da Paz.

A edificação foi concebida como um teatro-monumento de estilo neoclássico. O projeto apresentava referências europeias, especialmente na fachada inspirada no teatro de Bordeaux, na França. A sala de espetáculos, em formato de ferradura e distribuída em diferentes níveis, seguia o modelo italiano das grandes casas de ópera, como o Teatro alla Scala, de Milão.

Nilo Peçanha discursa no Teatro da Paz durante a campanha Reação Republicana, 1921. Belém, Pará / Acervo Museu da República

Construção atravessada por disputas e irregularidades

A história da construção, no entanto, ficou distante da imagem de ordem e sofisticação que o monumento projetaria posteriormente. O processo foi marcado por falta de planejamento, dificuldades de fiscalização, disputas entre engenheiros, alterações sucessivas no projeto e suspeitas de uso inadequado dos recursos públicos.

O primeiro projeto foi elaborado pelo engenheiro-militar José Tibúrcio Pereira de Magalhães, mas sofreu forte resistência dentro da Repartição de Obras Públicas. Após a saída dele de Belém, o engenheiro Antônio Augusto Calandrini de Chermont modificou significativamente a planta e a fachada, ampliando os custos da construção.

A obra começou em junho de 1869, antes mesmo de o novo orçamento estar concluído. O contrato com o empresário português João Francisco Fernandes recebeu vários aditivos ao longo dos anos, em razão das mudanças no projeto e de decisões tomadas durante a execução.

Entre 1872 e 1875, comissões de engenheiros encontraram divergências entre as plantas, os orçamentos e aquilo que havia sido efetivamente construído. Foram apontados problemas como paredes de espessuras diferentes, uso de madeira fraca onde deveriam ser utilizados materiais mais resistentes, estrutura defeituosa no telhado, número reduzido de camarins e materiais de baixa qualidade.

Em 1874, uma comissão chegou a condenar a obra. No ano seguinte, outra avaliação concluiu que havia erros graves de execução e fiscalização que beneficiavam financeiramente o responsável pela construção.

O conflito chegou à Justiça depois que o empreiteiro se recusou a realizar todas as correções exigidas. O edifício permaneceu fechado durante cerca de três anos, sujeito a invasões e aos efeitos do tempo. Após um acordo firmado em 1877, os trabalhos foram retomados. O custo final aproximado chegou a 800 contos de réis – 800 contos de réis equivaleriam hoje a uma fortuna entre R$ 80 milhões e R$ 98,4 milhões – , mais de cinco vezes o orçamento inicialmente autorizado.

 Foto: Reprodução/Theatro da Paz

A inauguração em 1878

O prédio foi recebido oficialmente pelo governo provincial em 13 de fevereiro de 1878 e inaugurado dois dias depois, em 15 de fevereiro. A abertura foi um dos acontecimentos mais disputados daquele ano em Belém.

Dentro do teatro estava a chamada “gente escolhida”, expressão usada pelos jornais da época para se referir às classes mais ricas. Do lado de fora, populares se amontoavam para acompanhar a chegada das carruagens e dos convidados, transformando a movimentação na praça em um espetáculo paralelo.

O presidente da Província foi recebido com foguetes e por uma banda de música. A programação começou com o Hino Nacional e a marcha Gram-Pará, do maestro Libânio Colás. Em seguida, foi encenada a obra As Duas Órfãs, de A. D’Ennery, pela companhia dirigida por Vicente Pontes de Oliveira.

O jornalista José Veríssimo, que acompanhou a inauguração, registrou de maneira crítica que o teatro finalmente havia aberto suas “goelas”. A expressão refletia tanto a expectativa da população quanto as controvérsias provocadas pelos atrasos e pelos gastos acumulados durante a construção.

Jornalista José Veríssimo

O teatro ganha a cidade

Depois de inaugurado, o Theatro da Paz não se limitou às apresentações artísticas. O espaço passou a influenciar diretamente a dinâmica urbana de Belém, movimentando transportes, comércio, serviços, moda e o mercado imobiliário no entorno da praça.

Embora fosse projetado como um espaço voltado inicialmente às elites, o teatro também foi apropriado por diferentes grupos sociais. Estudantes, trabalhadores e outros moradores passaram a frequentar as apresentações, ainda que separados em setores de acordo com os valores dos ingressos e com a posição social. A plateia também se tornou espaço de manifestações públicas, vaias, protestos e disputas políticas. Assim, o teatro deixou de ser apenas um símbolo criado pelas autoridades e passou a fazer parte das formas de sociabilidade e de expressão da população paraense.

Essa dimensão social é central no estudo da historiadora Roseane Silveira de Souza, que mostra como a imagem idealizada do monumento acabou ocultando conflitos, usos populares, disputas administrativas e problemas ocorridos durante seus primeiros anos.

Reformas mudaram o interior e a fachada

A primeira grande reforma ocorreu entre 1887 e 1890. Foi nesse período que o teatro recebeu parte importante de sua decoração interna.

Entre as obras estão as pinturas de Domenico de Angelis e Chrispim do Amaral. De Angelis foi responsável pela alegoria do teto da sala de espetáculos, enquanto Chrispim do Amaral produziu o pano de boca conhecido como Alegoria da República.

A reforma coincidiu com a transição do regime monárquico para o republicano. As novas imagens inseridas no teatro também passaram a representar as mudanças políticas vividas pelo país e pelo Pará.

A aparência atual, entretanto, deve-se principalmente à ampla remodelação realizada entre 1904 e 1905. A obra foi motivada pelo aparecimento de uma rachadura no frontão, em 1902, mas foi muito além de um reparo estrutural.

A fachada foi redesenhada, um antigo alpendre foi demolido e a colunata, que possuía sete pilares, foi alterada para seis, seguindo as regras de simetria da arquitetura clássica. Um terraço foi aberto na parte frontal, enquanto o palco, a sala de espetáculos, a iluminação elétrica e os elementos decorativos foram renovados.

A sala manteve o formato de ferradura, característica das casas de ópera italianas. Foi essa intervenção que consolidou a imagem de opulência associada atualmente ao Theatro da Paz. Fotografias reunidas no estudo mostram a fachada antes e depois da alteração da colunata, evidenciando como a reforma mudou profundamente a identidade visual do edifício.

Da Belle Époque ao patrimônio mundial

O Theatro da Paz tornou-se um dos grandes símbolos do período conhecido como Belle Époque amazônica, entre o fim do século XIX e o início do século XX. Naquele momento, a economia da borracha financiava transformações urbanas e aproximava Belém de circuitos comerciais e culturais internacionais.

Companhias europeias passaram a realizar temporadas ligadas também ao Teatro Amazonas, em Manaus. Os dois espaços representavam um mesmo projeto de inserção da Amazônia nos circuitos globais de comércio e cultura.

Com o passar do tempo, os teatros ultrapassaram o propósito original de suas elites fundadoras. Além da ópera, abriram espaço para manifestações populares, cinema, jazz, carimbó, boi-bumbá e outras expressões artísticas.

Ao serem inscritos conjuntamente como “Teatros da Amazônia”, o Theatro da Paz e o Teatro Amazonas passaram a representar oficialmente uma história compartilhada. Os dois combinam referências artísticas europeias, materiais importados, madeiras locais e elementos relacionados à floresta, formando uma estética ao mesmo tempo cosmopolita e amazônica.

Com o novo reconhecimento, o Brasil passa a ter 26 sítios inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco: 16 culturais, nove naturais e um misto. O Theatro da Paz e o Teatro Amazonas são os primeiros bens culturais da Região Norte a receber o título.

A trajetória do monumento paraense mostra que sua importância não se limita à arquitetura. O Theatro da Paz guarda as marcas da riqueza da borracha, das desigualdades sociais, dos conflitos políticos, da má gestão de sua construção, das mudanças de regime e das diferentes formas de apropriação popular. Ao ser reconhecido pela Unesco, o prédio passa a integrar o patrimônio cultural mundial sem deixar de carregar as contradições e histórias humanas que ajudaram a construí-lo.

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