Cidades

Anestesista de jovem que morreu após cirurgia em Belém é denunciado em outro caso de morte

Bernardo Macedo morreu após complicações durante procedimento realizado em 2023; família afirma que houve falhas na avaliação, na anestesia e no atendimento após a cirurgia

Por Elielson Almeida
11/08/2026 às 19:29 • 6 min

Jovem de 23 anos foi submetido a uma pleuroscopia no Hospital Amazônia, em Belém, após médico apresentar o procedimento à família como necessário; MPPA denunciou cirurgião e anestesista pela morte do jovem. (Foto: reprodução)

Bernardo Almeida Cavalleiro de Macedo tinha 23 anos quando entrou andando no Hospital Amazônia, em Belém, para realizar um procedimento que, segundo a família, deveria durar cerca de 50 minutos. Era agosto de 2023. Ele estava em tratamento para tuberculose pleural, já havia passado por uma drenagem e, de acordo com o pai, estava em casa, medicado e se recuperando. Naquela manhã, a família não imaginava que aquela seria a última vez que veria o jovem com vida.

Em entrevista exclusiva ao Estado do Pará Online, o pai de Bernardo, Roberto Macedo, contou que o filho havia sido diagnosticado inicialmente com derrame pleural e passou por uma drenagem realizada pelo cirurgião torácico Augusto Cezar da Costa Sales. Depois do procedimento, uma biópsia identificou tuberculose pleural. Bernardo iniciou o tratamento e voltou para casa.

Segundo Roberto Macedo, durante uma consulta de acompanhamento, o mesmo médico apresentou à família a necessidade de uma pleuroscopia. O procedimento, de acordo com o relato, teria sido apresentado como necessário para evitar futuras sequelas respiratórias.

“Nessa consulta ele convenceu de que era preciso fazer essa pleuroscopia, que se não fizesse ia ficar com sequelas pro resto da vida, ia ter problemas de capacidade respiratória”.

A família também afirma que questionou diretamente qual anestesia seria utilizada. Segundo Roberto, o médico informou que Bernardo receberia anestesia peridural com sedação, descrita pelo profissional como um “cheirinho”. Posteriormente, a família descobriu que o jovem havia sido submetido a anestesia geral com intubação.

Procedimento foi tratado como urgente, diz família

Outro ponto questionado pelos familiares é a forma como a cirurgia foi encaminhada. Segundo Roberto, o médico marcou o procedimento no Hospital Amazônia logo após a consulta e a família entendeu que era necessário realizá-lo rapidamente. Somente depois da morte, segundo o pai, os familiares compreenderam que a pleuroscopia seria um procedimento eletivo. “A pleuroscopia é um procedimento eletivo, ou seja, nós poderíamos decidir fazer ou não.”

Roberto afirma que a família não recebeu essa informação no momento em que decidiu autorizar a cirurgia.

“Se nós não tivéssemos feito, não teria tido nenhum problema para o Bernardo. O Bernardo estaria hoje entre nós”.

Da Unimed Prime para o Hospital Amazônia

Bernardo havia realizado os atendimentos anteriores na Unimed Prime. Segundo o pai, a família chegou a questionar se a pleuroscopia poderia ser feita no mesmo hospital, mas recebeu como justificativa que o Hospital Amazônia teria melhor estrutura e equipamentos para o procedimento. “Ele disse que não, que lá no Hospital Amazônia tinha a melhor estrutura, que tinha os melhores equipamentos”, contou o pai de Bernardo.

Posteriormente, a família descobriu que o equipamento utilizado na pleuroscopia pertenceria ao próprio cirurgião. Na manhã do procedimento, Bernardo chegou ao hospital caminhando. Segundo o pai, a família acreditava que ele faria uma cirurgia de aproximadamente 50 minutos, retornaria ao quarto para observação e posteriormente receberia alta.

“Meu filho chegou andando, caminhando. Nós deixamos o Bernardo lá, achando que ele ia fazer um procedimento que ia durar 50 minutos”.

O procedimento, porém, demorou horas. Em vez de voltar para o quarto, Bernardo foi encaminhado para a UTI. A família só posteriormente passou a ter acesso a informações sobre as intercorrências ocorridas durante e depois da cirurgia. Reportagens anteriores sobre o caso também registraram que a família questiona a existência de lesões na traqueia e perfuração pulmonar durante o procedimento.

Médicos respondem a ação penal

O Ministério Público do Pará denunciou Augusto Cezar da Costa Sales e Cesar Collyer Carvalho pela morte de Bernardo. Segundo a denúncia, os profissionais teriam agido com negligência e imprudência ao não observar cuidados considerados necessários para o procedimento, incluindo exames pré-operatórios e avaliação de risco.

Além da ação criminal, o caso também tramita na esfera ética. O CRM-PA informou ao Estado do Pará Online que os autos estão em grau de recurso no Conselho Federal de Medicina (CFM), em Brasília. O órgão não pode detalhar o conteúdo do processo porque sindicâncias e processos ético-profissionais tramitam sob sigilo.

Para Roberto Macedo, porém, a responsabilização deveria ir além da discussão sobre um erro pontual. “O Bernardo não deveria nem estar naquela mesa. O Bernardo não deveria ter saído de casa para ir ao hospital”, conta Roberto Macedo.

Anestesista aparece em outro caso

O anestesista Cesar Collyer Carvalho, denunciado pelo Ministério Público do Pará no processo que apura a morte de Bernardo, também participou da cirurgia de Giovanna Coelho Gomes, de 29 anos, que morreu após um procedimento estético em Belém, na última sexta-feira (06). A participação do anestesista na cirurgia de Giovanna foi confirmada pela família da jovem.

No caso de Bernardo, Cesar Collyer é réu na ação penal ao lado do cirurgião Augusto Cezar da Costa Sales. Já no caso de Giovanna, o CRM-PA informou que tomou conhecimento da denúncia e instaurou procedimento para apurar as circunstâncias da morte. Segundo o Conselho, os procedimentos administrativos tramitam sob sigilo.

Três anos após a morte do filho, a família de Bernardo continua cobrando esclarecimentos sobre o procedimento e a atuação da equipe médica. Para o pai, a principal questão é saber se a cirurgia poderia ter sido evitada e se a morte do jovem poderia ter sido impedida.

O Estado do Pará Online mantém espaço aberto para esclarecimentos.

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