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Frete caro e juros altos ameaçam pequenos produtores de soja e milho no Pará

Com menos capital para enfrentar uma safra ruim, produtores menores ficam mais vulneráveis à concentração da produção e dos ativos rurais

Por Estado do Pará Online
13/09/2026 às 10:00 • 6 min

Com menos acesso a capital e infraestrutura, produtores menores ficam mais expostos às oscilações de preço, frete e clima. (Foto: reprodução)

Produtores de soja e milho enfrentam uma combinação de frete elevado, crédito mais caro e riscos climáticos que aumenta a pressão sobre as pequenas e médias propriedades no Pará e em outras áreas de expansão agrícola do país. Nesse cenário, quem possui maior capacidade financeira e estrutura própria de armazenamento e transporte parte de uma posição de vantagem na hora de produzir e comercializar a safra.

No Pará, um dos principais corredores de escoamento da produção agrícola brasileira, o custo da logística pesa especialmente sobre quem depende do transporte rodoviário para levar os grãos até os terminais do Arco Norte. A rota entre Mato Grosso e Miritituba, no oeste paraense, é apontada como um dos pontos de maior pressão sobre o produtor, com períodos de congestionamento e aumento das despesas relacionadas ao transporte.

A situação se soma ao custo do crédito. Com a Selic em 15% ao ano, financiamentos contratados fora das linhas subsidiadas ficam mais caros, enquanto produtores com menor capacidade de oferecer garantias encontram mais dificuldades para acessar recursos. A diferença entre o crédito rural subsidiado e as taxas praticadas no mercado pode definir quem consegue atravessar um período de baixa rentabilidade e quem precisa vender, arrendar ou renegociar seus ativos.

O problema ganha outra dimensão quando ocorre uma quebra ou redução de produtividade. Soja e milho dependem de um calendário de chuvas relativamente regular, e períodos prolongados de estiagem ou excesso de precipitação podem comprometer a produção. Para grandes grupos, uma safra ruim pode ser absorvida com maior facilidade por causa da escala, do acesso a capital e da possibilidade de armazenar a produção à espera de melhores condições de mercado.

A vantagem de quem controla a logística

A capacidade de transportar, armazenar e vender a produção diretamente também interfere na margem obtida pelo agricultor. Quem depende de frete contratado no período de maior demanda fica mais exposto às oscilações de preço, enquanto produtores maiores podem contar com estruturas próprias ou contratos de longo prazo.

É nesse ponto que ganham importância as grandes tradings que atuam no mercado brasileiro. Empresas com presença simultânea na compra dos grãos, no armazenamento, no transporte e na exportação conseguem participar de diferentes etapas da cadeia, reduzindo a dependência de fornecedores e ampliando sua capacidade de negociação.

Entre as empresas citadas nesse processo está a chinesa Cofco, que ampliou sua presença na infraestrutura brasileira de exportação de grãos. A companhia atua na originação e comercialização de commodities e também possui investimentos em estruturas logísticas utilizadas para o escoamento da produção.

A concentração não significa necessariamente que essas empresas sejam proprietárias das terras onde os grãos são produzidos. O poder econômico pode estar justamente no controle de etapas que acontecem antes e depois da propriedade rural: financiamento, compra da produção, transporte, armazenamento, certificação e acesso aos mercados internacionais.

Pará entra no centro da disputa

A posição geográfica do Pará transformou o estado em uma peça importante para o escoamento de grãos produzidos no Centro-Oeste e nas novas fronteiras agrícolas. Portos e terminais do Arco Norte permitem reduzir parte da distância até os mercados internacionais, mas os gargalos nas estradas e nos acessos aos terminais continuam pesando sobre os custos.

A expansão agrícola também aproxima o Pará da disputa global por terras, infraestrutura e commodities. No MATOPIBA, formado por áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e no território paraense, a abertura de novas áreas de produção ocorre ao mesmo tempo em que empresas ampliam investimentos em logística e comercialização.

Esse movimento cria uma contradição: quanto mais importante a região se torna para o mercado internacional de grãos, maior é a necessidade de infraestrutura para garantir o escoamento. Mas os custos dessa estrutura e das deficiências existentes não atingem todos os produtores da mesma maneira.

Terra não é o único espaço de disputa

A legislação brasileira estabelece restrições para a aquisição de terras rurais por estrangeiros e para empresas brasileiras controladas por capital estrangeiro. A existência dessas regras, porém, não impede que grupos multinacionais tenham participação relevante em outras etapas da cadeia agrícola.

É justamente nessa diferença que está uma das principais questões levantadas pela análise: controle econômico da cadeia e propriedade formal da terra não são necessariamente a mesma coisa.

Uma empresa pode não possuir grandes extensões de terra e, ainda assim, ter participação decisiva na definição de onde a produção será armazenada, como será transportada, para quem será vendida e em quais condições comerciais. Para pequenos e médios produtores, essa dependência pode reduzir o poder de negociação justamente em momentos de maior necessidade financeira.

Com custos elevados, crédito restrito e maior exposição ao clima, produtores menos capitalizados ficam mais vulneráveis a endividamento e perda de patrimônio. A consequência pode ser o aumento da concentração fundiária e econômica, à medida que propriedades ou contratos de produção passam para grupos com maior capacidade de investimento.

No fim da cadeia, a disputa não envolve apenas quem possui a terra. Envolve também quem financia a produção, controla o transporte, armazena os grãos e define o acesso ao mercado internacional. É nessa combinação que a crise do agro pode deixar de ser apenas um problema de safra e se transformar em uma disputa pelo controle econômico do território.

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