Política

Dono do Posto acusado de abastecer carreata de Daniel controla empresa com contratos na Prefeitura de Ananindeua

Service Brasil, administrada por Kleyton Oliveira de Abreu, firmou quatro locações com a Prefeitura de Ananindeua em 2026; relatório obtido pelo EPOL aponta lacunas no PNCP, troca de locadora em imóveis já usados pela gestão municipal e questionamentos ainda sem respostas

Por admin
09/09/2026 às 01:35 • 10 min

“A trilha do dinheiro não sai diretamente das bombas de combustível para os cofres públicos”. Foi com essa provocação em forma de sugestão de pauta que o EPOL recebeu e partiu en busca de esclarecimentos para entender o que ocorreu de fato na principal polêmica da disputa eleitoral que ocorreu durante o último final semana.

A opinião obtida por analistas jurídicos consultados pelo EPOL que entrou de cabeça nessa investigação jornalística encontrou indícios de que o Posto Cristo Ltda., conhecido como Posto Cristo Rei, não possui contrato nem empenho identificado com a Prefeitura de Ananindeua. Mas o cruzamento de dados empresariais e públicos revela uma conexão que exige explicações: Kleyton Oliveira de Abreu é o administrador da Service Brasil Ltda., empresa que firmou quatro contratos de locação com secretarias municipais de Ananindeua em 2026, todos por contratação direta, no valor total de R$ 1.971.444,96.

O empresário é dono do posto onde a polícia militar foi acionada para verficar uma denúncia de abastecimento de veículos para abastecer veículos de uma carreata da campanha de Daniel Santos, no último final de semana.

As informações constam em um relatório de inteligência ao qual o EPOL teve acesso e apura de forma criteriosa, respeitando o dirieto ao contraditório e consultando os acusados, oferecendo o mesmo espaço para que apresentem seus posionamentos. O documento reúne dados oficiais de CNPJ, Diário Oficial, Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), Mural de Licitações do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará (TCM-PA), Agência Nacional do Petróleo (ANP) e Portal da Transparência de Ananindeua.

O levantamento aponta o Posto Cristo Rei como ponto de partida na esteira da operação policial que apura uma possível distribuição irregular de combustível para veículos ligados para a já citada carreata eleitoral do candidato a governador, Daniel Santos, realizadas em Ananindeu e Belém. A ação resultou na polêmica condução de três funcionários, apreensão de equipamentos, como computadiores, celulares e listas com nomes e placas. O material, segundo a Polícia Civil, foi encaminhado à Justiça Eleitoral.

O levantamento jornalístico e exclusivo do EPOL não conclui que a Prefeitura de Ananindeua pagou os abastecimentos investigados, nem aponta contrato municipal com o posto. Também não comprova que a Service Brasil tenha participado da distribuição de combustível. O que nossa equipe de jornalismo quer entender é como as duas empresas que têm o mesmo cempresário como controlador, sabendo que uma delas – a Service Brasil – passou a ganhar contratos para locações de imóveis para o município de Ananindeua.

Quatro contratos, quase R$ 2 milhões

Segundo o levantamento obtido pela redação deste portal, a Service Brasil foi contratada por três secretarias municipais para locar quatro imóveis:

ContratoFinalidadeValor
SEURB 01/2026Galpão para triagem de materiais recicláveisR$ 384.000,00
SEURB 02/2026Galpão para instalação e funcionamento da SEURBR$ 1.051.394,52
SESDS 001/2026Imóvel na Rua Cláudio Saunders, nº 1047R$ 298.450,44
SEMA 001/2026Imóvel na Rua Cláudio Saunders, s/nR$ 237.600,00
TotalR$ 1.971.444,96

Contratação direta não é, por si só, ilegal. A legislação admite dispensa ou inexigibilidade em situações específicas, inclusive para locação de imóvel cujas características e localização justifiquem a escolha. O problema começa quando faltam publicidade, documentação acessível e respostas capazes de demonstrar por que aquele imóvel e aquele fornecedor eram indispensáveis. E cabe perguntarmos: por que o preço era compatível com o mercado.

Os contratos foram celebrados em 2026, já durante a gestão de Hugo Atayde – atual prefeito de Ananindeua – e aparecem assinados pelos titulares das respectivas secretarias e, em parte dos documentos, pelo próprio Kleyton, representando a Service Brasil.

Contrato de R$ 1 milhão não foi localizado no PNCP

O ponto mais grave do levantamento envolve o contrato 02/2026 da SEURB, de R$ 1.051.394,52. O procedimento aparece no Mural do TCM-PA como uma inexigibilidade para alugar um galpão na Rua Cláudio Saunders, nº 1333, destinado à sede da Secretaria de Serviços Urbanos. O registro informa apenas um participante e nenhum aditivo.

Apesar disso, as informações obtidas por nossa redação levantam a suspeita de que o contrato não foi localizado no PNCP, até a consulta realizada com o CNPJ principal da Prefeitura, onde apenas o contrato 01/2026 da SEURB apareceu vinculado à Service Brasil. Os contratos da SESDS e da SEMA também não foram encontrados na pinvestigação jornalística, embora que ainda seja necessário verificar eventual publicação nos CNPJs específicos das secretarias.

O artigo 94 da Lei nº 14.133 estabelece que a divulgação no PNCP é condição indispensável para a eficácia do contrato e fixa prazo de dez dias úteis, contados da assinatura, para contratações diretas. A Prefeitura de Ananindeua ainda precisa esclarecer quando o contrato 02/2026 foi assinado, sob qual registro foi publicado e por que ele não apareceu na consulta realizada por nossa equipe de jornalistas. Se a ausência for confirmada, não se trata de detalhe burocrático: trata-se de uma exigência legal de transparência e eficácia contratual.

A troca de locadora que pede explicação

Outros dois contratos levantam uma pergunta direta: por que imóveis que já atendiam à Prefeitura passaram a ser alugados pela Service Brasil logo após o encerramento dos contratos anteriores?

Até 8 de dezembro de 2025, a sede da Secretaria Municipal de Segurança e Defesa Social e da Guarda Civil era alugada da Everest Empreendimentos Imobiliários por R$ 298.450,44 anuais. Cinquenta e cinco dias depois, a Service Brasil assinou novo contrato pelo mesmo valor, até o último centavo, para um imóvel na mesma via.

O endereço anterior aparece como número “10147”, enquanto o novo contrato registra “1047”. O levantamento feito por nossa redação considera alta a probabilidade de erro de digitação e de se tratar do mesmo imóvel, mas deixamos claro que essa conclusão ainda precisa ser confirmada pela matrícula, escritura e laudos de vistoria.

Situação semelhante surge na Secretaria Municipal de Meio Ambiente. O imóvel antes alugado da Everest ficava na esquina da Rua Bom Sossego com a Cláudio Saunders, por R$ 236.726,40 anuais. Em 2026, a Service Brasil passou a locar à SEMA um imóvel descrito como “s/n”, na mesma região, por R$ 237.600. Uma diferença de apenas 0,37%.

A apuração jornalística não encontrou vínculo societário, telefônico, contábil ou de endereço entre a Everest, seu proprietário e Kleyton. Também não teve acesso às matrículas que revelariam quem são os donos registrais dos imóveis. Sem esses documentos, não é possível afirmar se houve mudança de propriedade, sublocação ou apenas substituição da empresa contratada. É justamente por isso que a Prefeitura deve tornar públicas as escrituras, avaliações, justificativas de preço, razões da escolha e o motivo para não renovar os contratos anteriores.

Empresa de R$ 30 mil passou a receber contratos milionários

A Service Brasil foi aberta em maio de 2022 como microempreendedor individual. Kleyton entrou na empresa em abril de 2025, quando o negócio passou a ter como atividade principal o aluguel de imóveis próprios e capital social declarado de R$ 30 mil. Meses depois, a empresa começou a firmar contratos que, somados, chegam perto de R$ 2 milhões.

Capital social reduzido não torna uma contratação irregular. Mas a velocidade da expansão empresarial e o volume dos compromissos públicos impõem aos gestores municipais o dever de demonstrar, com documentos, a capacidade da empresa, a titularidade dos imóveis e a vantagem das contratações.

Em nossa apuração, o empresário Kleyton é sócio-proprietário de 22 CNPJs, além de uma participação empresarial indireta, em setores que vão de combustíveis e locação de imóveis a vestuário, atividade rural e serviços auxiliares de transporte aéreo. Segundo nosso levantamento, 21 desses vínculos empresariais surgiram ou foram assumidos entre outubro de 2024 e abril de 2026.

R$ 1,26 milhão empenhado e nenhum pagamento registrado

Na base do Portal da Transparência consultada em 5 de setembro, a Prefeitura havia empenhado R$ 1.260.162,10 para a Service Brasil, todo o valor relacionado à SEURB. O sistema mostrava zero liquidado e zero pago. Para os contratos da SESDS e da SEMA, o relatório não encontrou empenhos.

Os ontratos antigos da Everest também não aparecem no portal financeiro, embora tenham vigorado por anos. Isso pode indicar atraso ou incompletude da base, pagamentos registrados por outra unidade gestora ou, de fato, ausência de liquidação. Qualquer cenário exige resposta e transparência. Se houve pagamento e ele não aparece, falha a transparência pública devida pelos gestores; se não houve, é preciso explicar por que contratos em vigor há meses ainda não geraram liquidação registrada.

O elo já citado pelo Ministério Público

Kleyton Oliveira de Abreu não aparece apenas nos cadastros do posto e da empresa contratada pela Prefeitura. O nome dele já havia sido citado pelo Ministério Público do Pará em uma ação civil pública ambiental envolvendo o ex-prefeito de Ananindeua e atual candidato ao Governo do Estado, Daniel Santos.

Segundo a acusação do MPPA noticiada em junho, uma fazenda atribuída a Daniel teve sua titularidade alterada, em agosto de 2025, para Kleyton. O Ministério Público sustenta que a mudança teria sido usada para mascarar a propriedade após fiscalizações por desmatamento ilegal. Na ocasião, a defesa de Daniel negou irregularidades, classificou o caso como perseguição política e afirmou que apresentaria seus argumentos à Justiça.

O EPOL ressalta que Kleyton não figura como réu, investigado ou denunciado nas fontes públicas consultadas. A referência feita pelo MPPA estabelece um elo relevante para apuração jornalística, mas não autoriza concluir que ele tenha cometido crime.

Também não há, no documento, prova de que Daniel tenha participado ou interferido nos contratos de 2026. As contratações foram formalizadas durante a administração de Hugo Atayde. Cabe à gestão atual explicar a seleção da empresa, a situação dos imóveis e a publicidade dos processos.

O que Ananindeua precisa responder

O conjunto de dados não entrega uma sentença pronta. Entrega perguntas objetivas que o poder público não pode tratar como ruído eleitoral:

  1. Quem são os proprietários registrais dos quatro imóveis alugados da Service Brasil?
  2. Por que a Prefeitura substituiu a Everest pela Service Brasil em imóveis aparentemente iguais ou localizados nos mesmos endereços?
  3. Onde estão publicados, no PNCP, os contratos 02/2026-SEURB, 001/2026-SESDS e 001/2026-SEMA?
  4. Quais avaliações, laudos e justificativas comprovaram a singularidade dos imóveis e a compatibilidade dos preços?
  5. Por que o Portal da Transparência registra R$ 1,26 milhão empenhado, mas nenhum valor liquidado ou pago?
  6. Existe alguma relação, além da empresarial já documentada, entre os contratos municipais e o episódio dos abastecimentos investigados pela Justiça Eleitoral?

Em uma eleição marcada por troca de acusações graves. sobre moralidade, corrupção e uso da máquina pública, a resposta não pode ser silêncio. A Prefeitura, os empresários envolvidos e os agentes políticos citados devem apresentar documentos, não versões. É o mínimo que Ananindeua – e o eleitor paraense – têm o direito de exigir.

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