Eleições 2026

Após empate numérico, Lula eleva o tom e passa a atacar diretamente Flávio Bolsonaro

Presidente vinha adotando uma campanha mais institucional e evitava confrontos diretos, mas novo cenário eleitoral indica possível mudança de rota na disputa

Por Mayra Peniche
08/09/2026 às 17:24 • 9 min

Foto: Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Agência Senado

A pesquisa Quaest divulgada no dia (07) mostrou o primeiro empate numérico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A pesquisa tem a margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o número BR-01720/2026.

Esse empate parece ter provocado uma mudança perceptível no tom da campanha petista. Depois de meses adotando uma postura mais institucional, centrada na defesa das ações do governo e evitando transformar Flávio no principal alvo de seus discursos, Lula passou a elevar o tom e a fazer ataques mais diretos ao adversário.

A estratégia sugere uma possível mudança de rota na campanha. Diante de um cenário eleitoral mais apertado, o presidente parece começar a combinar a defesa dos resultados de seu governo com uma tentativa mais explícita de estabelecer diferenças entre seu projeto político e o representado pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Da campanha institucional ao confronto direto

Até então, Lula vinha mantendo uma distância calculada do embate direto. O presidente procurava concentrar sua argumentação nos resultados de seu governo, apresentando medidas econômicas, programas sociais e ações da gestão como principais ativos da campanha.

A estratégia tinha uma lógica: como presidente e candidato à reeleição, Lula buscava ocupar uma posição institucional e transformar a eleição, principalmente, em um julgamento sobre seu governo.

Essa postura também se refletiu na relação com Flávio Bolsonaro. O presidente evitou, em diferentes momentos, colocar o adversário no centro de entrevistas e sabatinas e não participou do primeiro debate eleitoral.

O novo cenário apontado pelas pesquisas, no entanto, pode estar alterando essa equação.

O empate numérico representa um sinal de alerta para uma campanha que vinha apostando em uma estratégia menos confrontacional. E os movimentos mais recentes indicam que Lula pode ter chegado à conclusão de que, diante da consolidação de Flávio Bolsonaro como adversário competitivo, não basta apenas defender o próprio governo.

Também será necessário atacar.

Patriotismo vira novo campo de batalha

Um dos materiais mais recentes produzidos pela campanha petista é um ataque direto a Flávio Bolsonaro e tenta estabelecer uma divisão clara entre duas ideias: de um lado, Lula como representante do patriotismo e da defesa dos interesses nacionais; do outro, a família Bolsonaro associada ao que o PT tenta caracterizar como submissão ou entreguismo aos interesses dos Estados Unidos.

A estratégia explora episódios envolvendo integrantes da família Bolsonaro e suas movimentações junto ao governo de Donald Trump em meio às discussões sobre medidas que poderiam atingir diretamente o Brasil.

A campanha tenta transformar esse episódio em argumento eleitoral e inverter uma das narrativas historicamente mais associadas ao bolsonarismo.

Durante anos, o campo político de Jair Bolsonaro construiu parte de sua identidade em torno de símbolos nacionais, bandeiras e discursos de patriotismo. Agora, Lula tenta disputar justamente esse terreno.

A mensagem é simples: apresentar Lula como alguém que representa a defesa da soberania brasileira e, ao mesmo tempo, colocar Flávio Bolsonaro no campo oposto, associado a interesses estrangeiros.

Escândalos no STF atrapalham mais Lula que Flávio

Há ainda outro elemento que pode ajudar a explicar a mudança de estratégia.

Apesar de ter o nome diretamente associado ao de Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro pode encontrar espaço político justamente no sentimento de revolta generalizada provocado pelo escândalo do Banco Master. As revelações sobre as relações de Vorcaro com diferentes setores do poder, incluindo integrantes do Judiciário e políticos, ampliaram a percepção de que o caso ultrapassa fronteiras ideológicas.

As últimas movimentações políticas e revelações envolvendo diferentes setores do poder público alimentam um ambiente de desgaste generalizado das instituições e reforçam, para parte do eleitorado, a sensação de que “está tudo podre” dentro do sistema político.

Esse sentimento, por mais que também possa atingir nomes ligados à oposição e políticos que fazem parte da vida pública há décadas, tende a representar um desafio maior para quem ocupa o comando do país.

E essa é uma diferença importante entre Lula e Flávio Bolsonaro na atual disputa.

Apesar de Flávio estar na política há muitos anos e também ser associado, por sua trajetória e pelo sobrenome, ao sistema político tradicional, ele não é quem ocupa a Presidência da República. Quem governa o país é Lula.

Por isso, em um cenário de revolta generalizada contra a política e contra as instituições, o presidente acaba sendo mais diretamente associado, aos olhos de parte do eleitorado, à estrutura de poder que está sendo criticada.

Flávio Bolsonaro pode se beneficiar dessa insatisfação justamente porque tenta ocupar o papel de adversário do governo. Mesmo fazendo parte da política institucional, ele disputa a eleição sem carregar, neste momento, a responsabilidade direta pela administração federal.

É uma lógica comum em disputas eleitorais: o eleitor descontente nem sempre busca necessariamente alguém que esteja completamente fora do sistema. Muitas vezes, basta que exista alguém que possa ser apresentado como alternativa a quem está no comando.

E, neste caso, Lula é quem está sendo testado pelo eleitorado como governo.

Para quem governa, a revolta tem um endereço

A diferença entre estar no poder e disputar o poder pode se tornar ainda mais importante à medida que a campanha avança.

Flávio Bolsonaro pode até enfrentar dificuldades para se apresentar como um verdadeiro “outsider”. Afinal, além de ser senador e pertencer a uma das famílias mais influentes da política brasileira, seu próprio nome pode aparecer em meio às discussões e desgastes que envolvem o ambiente político nacional.

Mas há uma diferença fundamental: ele não é o presidente.

Lula, por outro lado, precisa defender um governo em exercício. Qualquer aumento da sensação de crise, corrupção, desgaste institucional ou desorganização política tende a produzir uma cobrança mais imediata sobre quem está sentado na cadeira do Planalto.

É nesse ambiente que um discurso exclusivamente baseado nas entregas do governo pode se tornar insuficiente.

Se o eleitor passa a enxergar o cenário político como um sistema em que “está tudo podre”, a campanha de quem ocupa o poder precisa encontrar uma forma de evitar que a revolta seja automaticamente direcionada contra o governo.

Ataques a Flávio podem ser tentativa de mudar o foco da disputa

É justamente aí que os ataques diretos podem ganhar importância na estratégia de Lula.

Ao elevar o tom contra Flávio Bolsonaro, a campanha petista tenta impedir que a eleição se transforme em um plebiscito exclusivamente sobre o governo atual.

A ideia passa a ser ampliar o campo de julgamento do eleitor.

Em vez de apenas perguntar se o eleitor está satisfeito ou insatisfeito com o governo Lula, a campanha tenta reforçar outra pergunta: quem é Flávio Bolsonaro e o que ele representa?

A estratégia sobre patriotismo e soberania nacional se encaixa nesse esforço. O objetivo é criar uma vulnerabilidade própria para o adversário e impedir que ele consiga crescer apenas como o candidato da mudança ou como o canal da insatisfação contra o sistema.

Na prática, Lula parece tentar tirar Flávio Bolsonaro da confortável posição de quem apenas critica e obrigá-lo a responder também por sua própria trajetória e pelas posições de sua família.

O empate pode ter acelerado uma mudança de rota

Ainda não é possível afirmar que a campanha de Lula abandonou definitivamente a estratégia institucional adotada até agora. Mas os sinais apontam para uma nova combinação de discursos.

O presidente deve continuar apostando nos resultados de seu governo e na condição de quem está no poder. Ao mesmo tempo, o empate numérico parece ter aumentado a disposição da campanha para personalizar o confronto.

A eleição, portanto, pode entrar em uma fase mais agressiva.

De um lado, Lula tentará defender sua gestão e associar sua candidatura à defesa da soberania nacional. Do outro, Flávio Bolsonaro tende a buscar espaço justamente entre os eleitores insatisfeitos com o governo e com o funcionamento das instituições.

O desafio para Lula será impedir que a revolta contra a política seja transformada automaticamente em revolta contra quem governa.

E o desafio para Flávio Bolsonaro será conseguir se beneficiar desse sentimento sem ser engolido pela contradição de fazer parte, há décadas, de uma das famílias mais poderosas da política brasileira.

O empate numérico, nesse sentido, pode representar mais do que uma simples oscilação nas pesquisas. Ele pode ter funcionado como um ponto de inflexão na campanha.

Depois de meses tentando fazer uma campanha mais institucional, Lula parece começar a aceitar que, para se reeleger, talvez não seja suficiente apenas mostrar o que fez.

Também será necessário escolher um adversário, enfrentá-lo diretamente e convencer o eleitor de que a mudança representada por Flávio Bolsonaro pode não ser, afinal, a mudança que ele procura.

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