Eleições 2026

7 de Setembro de Lula flopou, teve acenos às mulheres e contrastou com a mobilização bolsonarista

Estiveram presentes no evento o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin, o presidente da Câmara dos Deputados e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin.

Por Mayra Peniche
07/09/2026 às 16:30 • 6 min

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

O 7 de Setembro de 2026 marcou mais uma tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de disputar o simbolismo da Independência sem transformar a data em uma grande demonstração de força eleitoral. Com um tom mais institucional e discreto, a cerimônia em Brasília teve como principais eixos a defesa da soberania nacional, o combate à violência contra as mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027.

A escolha dos temas também revelou uma estratégia política. Ao incluir o enfrentamento à violência contra as mulheres e o futebol feminino entre os destaques do desfile, Lula fez acenos a um eleitorado que deve ser decisivo na eleição presidencial de outubro: o feminino.

A presença da primeira-dama Janja da Silva e de outras autoridades na cerimônia também reforçou a tentativa de dar visibilidade às mulheres em uma celebração tradicionalmente marcada pelo protagonismo militar e pela simbologia nacional.

Em pronunciamento transmitido na véspera do feriado, Lula concentrou sua fala na defesa da soberania brasileira. O presidente afirmou que o país não aceitará interferências estrangeiras em suas decisões e reforçou a ideia de que o Brasil deve manter o controle sobre suas riquezas e seu futuro. No desfile, o governo evitou símbolos partidários e apostou principalmente no verde e amarelo, cores que nos últimos anos passaram a ser fortemente associadas ao bolsonarismo.

Um 7 de Setembro diferente do bolsonarismo

A postura de Lula contrasta com a importância que o 7 de Setembro adquiriu durante o governo de Jair Bolsonaro. Para o bolsonarismo, a data deixou de ser apenas uma celebração institucional da Independência e se transformou em um dos principais momentos de mobilização política do movimento.

Durante a Presidência de Bolsonaro, manifestações de 7 de Setembro reuniram milhares de apoiadores vestidos de verde e amarelo, com bandeiras do Brasil, discursos contra o Supremo Tribunal Federal e demonstrações de apoio pessoal ao então presidente. O feriado passou a funcionar, na prática, como uma espécie de grande ato político anual do bolsonarismo.

O episódio mais emblemático ocorreu em 2022, no Bicentenário da Independência, quando Bolsonaro utilizou as celebrações oficiais em Brasília para reforçar sua presença política em plena campanha pela reeleição. Aquele 7 de Setembro foi marcado por grandes manifestações e pelo uso intenso da simbologia patriótica, consolidando a data como um dos principais palcos políticos do bolsonarismo.

Lula, por outro lado, parece seguir uma estratégia diferente. Embora também tenha percebido o peso político dos símbolos nacionais, o presidente tenta reaproximar o verde e amarelo de uma narrativa institucional, evitando uma estética de confronto direto ou a transformação do desfile oficial em um comício eleitoral.

Mulheres e soberania no centro da estratégia

Os temas escolhidos para o desfile deste ano ajudam a entender essa diferença. Em vez de concentrar a celebração em ataques a adversários ou demonstrações de força política, o governo colocou no centro da programação a soberania brasileira, o enfrentamento ao feminicídio e à violência contra as mulheres e a realização da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil.

A presença dessas pautas também pode ser interpretada como um movimento de aproximação com o eleitorado feminino. Mulheres representam uma parcela decisiva do eleitorado brasileiro e, historicamente, apresentam comportamentos diferentes dos homens em disputas eleitorais polarizadas.

O discurso de Lula buscou combinar, portanto, duas frentes: de um lado, a defesa da soberania nacional, tema que permite ao presidente disputar o patriotismo e os símbolos brasileiros; do outro, pautas sociais ligadas às mulheres, tentando ampliar sua conexão com um segmento estratégico para a eleição.

O futebol feminino também foi lembrada

As atletas pioneiras do futebol feminino brasileiro serão homenageadas durante o Desfile de 7 de Setembro, nesta segunda-feira, em Brasília. Um grupo de jogadoras que atuaram na seleção brasileira entre as décadas de 1980 e 1990 desfilará pela Esplanada dos Ministérios, em carro aberto.

A homenagem celebra a trajetória da modalidade no Brasil, país que sediará a Copa do Mundo de Futebol Feminino em junho e julho de 2027.

Enquanto Lula desfila, bolsonarismo mantém tradição de ocupar as ruas

A diferença entre os dois campos políticos ficou evidente também fora da Esplanada dos Ministérios. Enquanto Lula participou da cerimônia oficial ao lado de representantes dos Três Poderes, setores da direita e do bolsonarismo mantiveram a tradição de utilizar o 7 de Setembro como data para manifestações políticas.

Atos realizados em Brasília e em outras cidades tiveram críticas ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal, além de demonstrações de apoio a candidatos ligados ao bolsonarismo. Em São Paulo, a Avenida Paulista voltou a ser palco de uma mobilização política da direita, mostrando que, mesmo fora da Presidência, o movimento ainda trata o Dia da Independência como uma data importante para demonstrar capacidade de mobilização.

O contraste ajuda a explicar a relação diferente que Lula e Bolsonaro construíram com o 7 de Setembro. Para Bolsonaro, a data se tornou um dos principais símbolos de sua identidade política e uma oportunidade para transformar patriotismo em demonstração de força popular.

Para Lula, o desafio tem sido outro: recuperar a simbologia nacional sem reproduzir o modelo de mobilização adotado pelo adversário.

Neste ano, a escolha foi por um 7 de Setembro mais contido. Menos vermelho, menos partidário e também menos eleitoralmente explícito. Mas, por trás do tom institucional, os sinais políticos estavam presentes: a defesa da soberania, a tentativa de disputar os símbolos nacionais e os acenos às mulheres mostram que, em ano eleitoral, até uma celebração tradicional da Independência pode carregar uma mensagem para as urnas.

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