Política

Crise no STF se agrava após troca de acusações entre Moraes e Mendonça

Relatório da Polícia Federal sobre o Banco Master provocou troca de acusações entre ministros e levou Edson Fachin a assumir a condução do caso

Por Felipe Borges
04/09/2026 às 12:04 • 5 min

Foto: Luiz Silveira e Carlos Moura/STF

A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novos contornos nesta semana após a divulgação de informações apreendidas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O material desencadeou um confronto entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, além de manifestações do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do presidente da Corte, Edson Fachin.

O caso teve origem em uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master. Após Mendonça retirar o sigilo de um relatório, vieram a público mensagens que indicariam contatos entre Vorcaro e Moraes, além de referências ao próprio Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Mensagens de Vorcaro provocaram reação no Supremo

De acordo com o relatório da PF, Vorcaro manteve contato com Moraes entre 2024 e 2025. O primeiro contato teria sido intermediado em 2023 pelo então ministro das Comunicações, Fábio Faria, que repassou ao banqueiro o número de telefone do ministro.

O documento registra encontros entre os dois. Um deles teria ocorrido em 2 de fevereiro de 2024, durante um jantar com a presença das respectivas esposas. Também foram registrados outros encontros ao longo daquele ano e em 2025.

As mensagens divulgadas também sugerem que Vorcaro teria buscado a ajuda de Moraes diante das investigações que envolviam o Banco Master. O material cita ainda supostos benefícios oferecidos pelo banqueiro ao ministro e familiares, incluindo cartões de crédito e uso de aeronaves particulares. As mensagens, no entanto, foram encontradas em um contexto de investigação contra Vorcaro e não significam, por si só, comprovação das suspeitas levantadas.

Outro trecho mostra Vorcaro perguntando se conseguiria deixar a situação em que estava e mencionando possíveis contatos com Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.

Mendonça encaminhou o caso à PGR

Responsável pela condução do caso relacionado ao Banco Master no STF, André Mendonça encaminhou o material para análise da Procuradoria-Geral da República (PGR) após a divulgação das mensagens.

A medida provocou reação de Paulo Gonet, que pediu a nulidade do relatório da PF. Para o procurador-geral, Mendonça teria ultrapassado os limites de atuação de um magistrado na fase pré-processual ao determinar a identificação de pessoas citadas na investigação sem uma provocação anterior do Ministério Público.

Gonet também questionou o tratamento dado às informações relacionadas a autoridades que possuem foro por prerrogativa de função no STF.

Moraes reage e pede investigação contra Mendonça

Dois dias depois, Alexandre de Moraes apresentou a Fachin um pedido para que André Mendonça fosse investigado. A iniciativa foi protocolada no âmbito do chamado inquérito das fake news, que está sob relatoria de Moraes.

Moraes apontou possíveis irregularidades na atuação de Mendonça em investigações relacionadas ao Banco Master e às fraudes envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Entre as suspeitas citadas estão possível interferência na condução de investigações da PF, irregularidades em tratativas de colaboração premiada e direcionamento de apurações por razões que Moraes classificou como pessoais e políticas. O ministro também mencionou o próprio nome, além do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, entre os possíveis alvos desse direcionamento.

O pedido de Moraes foi fundamentado em outro relatório de inteligência da PF. O documento aponta que Mendonça teria cogitado medidas envolvendo Gonet e Andrei Rodrigues. Ao mesmo tempo, o relatório afirma não haver elementos concretos de atuação irregular por parte do diretor-geral da Polícia Federal.

Ministros teriam discutido antes da escalada

Antes da divulgação pública dos documentos e das medidas formais, Moraes e Mendonça teriam protagonizado uma discussão durante uma sessão no STF, em 31 de agosto.

Segundo a reportagem da Terra, Mendonça questionou Moraes sobre um possível acesso antecipado a informações da PF. O ministro, por sua vez, teria acusado o colega de abuso de autoridade e de não observar os ritos necessários ao encaminhar diretamente a questão à PGR. Mendonça teria sustentado que as informações sobre Moraes surgiram durante uma investigação que originalmente não era direcionada ao ministro.

Fachin assume condução do caso

Diante do conflito entre os ministros, Edson Fachin determinou que Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues apresentem informações em até cinco dias.

O presidente do STF quer esclarecer, entre outros pontos, como ocorreu a identificação das pessoas mencionadas nas investigações do Banco Master, quais procedimentos foram adotados em relação às autoridades com foro no Supremo e se houve acesso indevido ou vazamento de documentos protegidos por sigilo.

Fachin também retirou do inquérito das fake news o pedido apresentado por Moraes contra Mendonça e transferiu a análise para a Presidência do Supremo. A medida tira de Moraes a condução direta do procedimento contra o colega de Corte.

A partir das manifestações dos envolvidos, Fachin deverá avaliar os questionamentos levantados pela PGR e os procedimentos adotados na investigação relacionada ao Banco Master. Até o momento, os pontos levantados no caso permanecem sob análise das autoridades competentes.

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