Política

DIGITAL DE MORAES: PF encontra registro de ministro como editor de contrato de R$ 131 milhões da própria esposa com Vorcaro

Metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro apontam que arquivo foi modificado por usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”; escritório de Viviane Barci confirma que magistrado analisou o documento antes da assinatura

Por Mayra Peniche
01/09/2026 às 18:54 • 5 min

Foto: reprodução / Portal STF

Uma nova informação revelada a partir da investigação sobre o Banco Master coloca o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), diretamente no processo de elaboração de um contrato milionário entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o empresário Daniel Vorcaro, então controlador do banco.

Segundo registros técnicos analisados pela Polícia Federal, uma versão do contrato de aproximadamente R$ 131 milhões foi modificada por um usuário identificado no sistema Office 365 como “Ministro Alexandre de Moraes”. O arquivo foi extraído do celular de Vorcaro durante as investigações. A informação foi revelada pelo Estadão e confirmada por outros veículos.

O episódio chama atenção porque, até então, a discussão pública sobre o contrato estava concentrada na relação comercial entre Vorcaro e o escritório de Viviane. Os metadados agora indicam que o próprio ministro teve acesso ao documento e participou de sua edição antes da assinatura.

A sequência dos arquivos

As mensagens recuperadas pela investigação ajudam a reconstruir a cronologia. Em 11 de janeiro de 2024, Viviane Barci de Moraes encaminhou a Vorcaro uma minuta do contrato pelo WhatsApp.

Quatro dias depois, em 15 de janeiro, Vorcaro devolveu o documento ao escritório com alterações e pediu que fosse validada uma cláusula incluída na minuta. Registros técnicos apontam que, posteriormente, o arquivo passou por uma nova alteração em um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

O contrato acabou sendo assinado em janeiro de 2024 e previa pagamentos milionários ao escritório da esposa do ministro. A versão divulgada na investigação estabelecia 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, chegando a R$ 108 milhões, enquanto o valor global do acordo foi estimado em cerca de R$ 131 milhões.

O que dizem os metadados

O ponto central da descoberta está nas informações técnicas armazenadas no próprio arquivo. De acordo com a apuração, o documento tinha como autor original Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório de Viviane. Já a última modificação aparece associada ao usuário denominado “Ministro Alexandre de Moraes”.

Em outra análise divulgada sobre o caso, o registro da alteração aparece associado ao Office 365 e a uma edição realizada durante a negociação do contrato. É esse dado que levou os investigadores a relacionarem tecnicamente o arquivo ao perfil utilizado pelo ministro.

Escritório confirma que Moraes analisou o contrato

A informação ganhou ainda mais peso porque o escritório de Viviane Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes teve acesso ao documento.

Segundo a explicação apresentada pela banca, o setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existia algum impedimento legal para a contratação pelo Banco Master.

A justificativa apresentada é que Moraes jamais teria julgado uma causa envolvendo o Banco Master e, portanto, não haveria impedimento legal para a prestação dos serviços. Após essa avaliação, o contrato foi assinado e, segundo o escritório, os serviços jurídicos foram efetivamente prestados.

De “não tinha relação” a uma assinatura digital no documento

É justamente esse ponto que transforma o episódio em um novo capítulo da crise envolvendo Moraes e Vorcaro.

Os metadados não provam, isoladamente, que o ministro tenha negociado o contrato, definido os valores ou determinado quais cláusulas deveriam constar no documento. Também não permitem, sozinhos, concluir que houve ilegalidade.

O que os registros demonstram, segundo a investigação, é algo mais específico: o arquivo passou por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” antes da assinatura do contrato entre o Banco Master e o escritório de sua esposa. O próprio escritório confirma que Moraes foi consultado e analisou a minuta.

A descoberta ocorre em meio a outras mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro, que apontam para uma relação próxima entre o empresário e o ministro. O conjunto das informações já provocou pedidos para que o STF analise a possibilidade de abertura de investigação sobre o caso.

Agora, a questão que passa a ser colocada é outra: qual foi exatamente o papel de Alexandre de Moraes na elaboração de um contrato de mais de R$ 130 milhões firmado entre o banco de um empresário com quem mantinha contato e o escritório comandado por sua própria esposa?

A resposta dependerá da análise do conteúdo das alterações feitas no documento, das demais mensagens recuperadas pela PF e das explicações apresentadas pelo ministro e pelo escritório.

Com informações do Estadão e Globo News.

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