Eleições 2026

Augusto Cury e a aposta no outsider: quando o escritor tenta transformar autoridade pessoal em capital político

Da literatura de autoajuda ao Palácio do Planalto, candidato do Avante tenta ocupar o espaço de quem promete romper com a polarização, mas enfrenta o desafio de transformar fama em voto

Por Mayra Peniche
27/08/2026 às 10:17 • 9 min

Foto: Reprodução

Augusto Cury chegou à disputa presidencial de 2026 por uma porta diferente daquela utilizada pela maioria dos candidatos. Não construiu sua trajetória em sindicatos, partidos, prefeituras, governos ou no Congresso. Sua carreira foi construída principalmente como médico, psiquiatra, escritor e palestrante, com uma produção editorial que o transformou em uma das figuras mais conhecidas do mercado brasileiro de desenvolvimento pessoal.

Agora, aos 67 anos, Cury tenta transformar essa notoriedade em capital político. Oficializado pelo Avante, ele apresenta-se como uma alternativa à polarização entre Lula e o bolsonarismo e procura vender justamente aquilo que costuma ser a principal moeda dos outsiders: a ideia de que alguém que está fora da política tradicional seria capaz de fazer diferente.

É válido ressaltar que o interesse do eleitor cresceu após o debate da Band, realizado 23 de agosto. Com as ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, Augusto Cury captaneou o interesse público. A busca pelo nome do Psiquiatra teve um aumento de mais de 1000% no Google Trends após a participação do candidatio.

O problema é que ser conhecido não significa necessariamente ser politicamente competitivo.

A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 24 de agosto mostra Cury com 2% das intenções de voto, enquanto Lula aparece com 41% e Flávio Bolsonaro com 37%. Ronaldo Caiado tem 5%, Renan Santos e Romeu Zema, 3% cada. Ou seja, neste momento, Cury ainda ocupa um espaço pequeno na corrida presidencial. 

O fenômeno outsider

A estratégia de Cury, entretanto, não surgiu do nada.

Nas últimas décadas, candidaturas que se apresentam como alternativas ao sistema político tradicional ganharam força em diferentes democracias. O discurso costuma ser parecido: os partidos tradicionais fracassaram, a política profissional está desacreditada e alguém vindo de fora poderia representar uma ruptura.

Uma revisão da literatura sobre outsiders publicada na Revista de Sociologia e Política mostra que o conceito não pode ser reduzido simplesmente a “alguém que nunca foi político”. Os pesquisadores apontam três dimensões importantes para caracterizar esse tipo de candidatura: a relação com os partidos, o discurso utilizado e a trajetória profissional do candidato.

É justamente aí que Cury se encaixa.

Ele não possui carreira eletiva anterior e estreou diretamente na disputa presidencial. Seu capital político nasceu fora das instituições tradicionais da política. Sua principal credencial não é uma prefeitura administrada, uma bancada parlamentar ou uma experiência de governo. É a imagem pública construída durante décadas como médico, escritor e palestrante.

Trump, Bolsonaro e Cury: semelhantes, mas não iguais

Donald Trump talvez seja o exemplo mais conhecido desse fenômeno nos Estados Unidos. Quando venceu a eleição presidencial de 2016, ele nunca havia ocupado um cargo público. Pesquisas posteriores sobre o eleitorado de Trump encontraram relação entre menor confiança no governo e maior propensão ao voto no candidato, especialmente em 2016.

Trump conseguiu transformar a própria condição de outsider em uma arma eleitoral. Sua falta de experiência política passou a ser apresentada como vantagem: justamente por não pertencer à política tradicional, ele poderia confrontá-la.

No Brasil, Jair Bolsonaro oferece um exemplo diferente. Ele já era um político profissional quando chegou à Presidência em 2018. Tinha décadas de experiência parlamentar. Ainda assim, estudos o classificam como um “outsider rebelde”, porque sua candidatura rompeu com a estrutura dos partidos tradicionais e foi construída por uma legenda marginal no sistema político naquele momento, o PSL. 

Cury é diferente dos dois.

Ele se aproxima mais do outsider completo: alguém cuja carreira política praticamente começa com a candidatura presidencial. Uma pesquisa recente sobre outsiders nas eleições brasileiras de 2002 a 2022 encontrou 12 outsiders completos, 10 rebeldes e apenas dois amadores. O estudo também mostra que esse tipo de candidatura não apresenta crescimento eleitoral automático ao longo do tempo: na maior parte das eleições analisadas, os outsiders ficaram abaixo de 4% dos votos agregados.

A lição é importante para Cury: o fato de existir descontentamento com a política não significa que qualquer outsider conseguirá transformar esse sentimento em votos.

A fórmula da antipolítica

Cury tenta ocupar justamente esse espaço.

Sua campanha aposta na antipolarização, na educação, na saúde emocional, no empreendedorismo e em uma linguagem que procura fugir da guerra permanente entre esquerda e direita. O próprio lançamento da candidatura foi apresentado pelo Avante como uma tentativa de oferecer uma alternativa à polarização. É uma estratégia racional.

Pesquisas sobre candidatos outsiders mostram que a falta de experiência política, sozinha, não é necessariamente o principal atrativo. Em experimentos com eleitores americanos, pesquisadores encontraram evidências mais consistentes de que o discurso anti-establishment produz uma vantagem eleitoral maior do que simplesmente ser inexperiente.

Em outras palavras, não basta Cury dizer “eu nunca fui político”.

Ele precisa convencer o eleitor de que justamente por nunca ter sido político consegue resolver problemas que os políticos tradicionais não conseguiram.

E essa é uma tarefa muito mais difícil.

O capital de Cury é também seu ponto de vulnerabilidade

Cury chega à política com algo que muitos candidatos demorariam décadas para construir: reconhecimento de nome.

Seus livros, palestras e projetos educacionais fizeram dele uma marca conhecida no mercado de desenvolvimento pessoal. Ele é médico formado pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e possui pós-graduação na PUC-SP. Também apresenta em sua trajetória um doutorado internacional em Psicologia Multifocal pela Florida Christian University, concluído em 2013.

Mas justamente nesse ponto aparece uma das maiores fragilidades de sua candidatura.

A chamada Teoria da Inteligência Multifocal, desenvolvida pelo próprio Cury, é alvo de questionamentos dentro do campo científico. Críticos apontam falta de validação científica suficiente e questionam a apresentação da teoria como uma explicação abrangente do funcionamento da mente humana. Há, inclusive, especialistas que classificam a abordagem como pseudocientífica. 

Isso não significa que Cury não seja médico ou que sua carreira editorial não seja real. Também não significa que tudo o que ele produz seja necessariamente falso.

O ponto é outro: uma coisa é ter enorme sucesso comercial e outra é possuir reconhecimento científico equivalente à fama construída junto ao grande público.

Essa diferença pode se tornar politicamente relevante.

A imagem de “especialista em comportamento humano” é um dos principais ativos de Cury. Mas, quando essa autoridade é transportada para a política, surge uma pergunta inevitável: quanto da credibilidade acumulada como escritor e palestrante pode ser automaticamente convertido em credibilidade para governar um país?

A resposta não é óbvia.

O risco de transformar a política em autoajuda

Existe ainda uma questão mais profunda.

A obra de Cury frequentemente trabalha com ideias como protagonismo individual, gerenciamento das emoções, controle dos pensamentos e desenvolvimento das próprias capacidades. Uma análise acadêmica da UFMG sobre sua produção identifica justamente a forte presença da ideia de que o indivíduo deve assumir o protagonismo sobre sua trajetória e sobre seus resultados. 

Na esfera individual, esse discurso pode ser extremamente atraente.

Na política, porém, ele encontra um limite.

Um presidente não administra apenas emoções. Ele administra orçamento, inflação, segurança pública, política externa, infraestrutura, Previdência, sistema tributário, relações entre Poderes e uma máquina estatal gigantesca.

Existe uma diferença enorme entre dizer a uma pessoa que ela precisa “assumir o controle da própria vida” e governar um país em que milhões de pessoas estão submetidas a condições econômicas e sociais que não dependem apenas de esforço individual.

É nesse ponto que a candidatura de Cury será testada.

O outsider que precisa provar que não é apenas uma celebridade

A candidatura de Augusto Cury pode ser entendida, portanto, menos como uma ameaça imediata aos polos tradicionais e mais como um experimento político.

Ele tenta descobrir se a autoridade construída no mercado editorial, na televisão, nas palestras e no discurso sobre comportamento humano pode ser convertida em autoridade eleitoral.

Até agora, os números indicam que essa conversão ainda está longe de acontecer. Os 2% registrados na pesquisa BTG/Nexus mostram que Cury possui visibilidade, mas ainda não possui uma base eleitoral comparável à de Lula ou Flávio Bolsonaro. 

O desafio é ainda maior porque o eleitor brasileiro já viu outros outsiders chegarem ao Planalto. Bolsonaro demonstrou que uma candidatura construída contra o sistema pode vencer. Mas também demonstrou que, para isso, não basta ser conhecido ou estar fora da política: é necessário construir uma identidade política capaz de organizar um eleitorado.

Cury ainda está tentando descobrir qual é essa identidade.

Seu discurso de “paz”, “humanidade”, educação e combate à polarização pode conquistar eleitores cansados da disputa entre Lula e Bolsonaro. Mas também pode produzir o efeito contrário: parecer excessivamente genérico diante de uma eleição cada vez mais marcada por conflitos concretos sobre economia, segurança, corrupção, costumes e poder.

O verdadeiro teste de Augusto Cury não é provar que ele é diferente dos políticos tradicionais. É provar que ser diferente é suficiente para governar.

E essa talvez seja a maior contradição da candidatura: para vencer como outsider, Cury precisa convencer o eleitor de que não pertence à velha política. Mas, para governar, terá de fazer exatamente aquilo que os outsiders costumam prometer que não farão: negociar com partidos, Congresso, governadores, empresários, sindicatos e instituições.

No fim, a eleição poderá mostrar se o eleitor brasileiro procura realmente um outsider ou apenas mais uma figura conhecida capaz de representar sua insatisfação com a política tradicional.

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