Eleições 2026

Bets na mira: veja o que cada presidenciável quer fazer com as casas de apostas

Proibir, taxar ou controlar? Candidatos à Presidência apresentam propostas diferentes para um setor que movimenta bilhões, mas que endivida e gera problemas sociais aos brasileiros

Por Mayra Peniche
24/08/2026 às 12:27 • 12 min

Os presidenciáveis apresentam propostas diferentes para tentar enfrentar impactos das Bets Foto: Imagem gerada por IA

As casas de apostas online, popularmente chamadas de bets, entraram de vez na agenda das eleições presidenciais de 2026. O avanço das plataformas, o aumento do endividamento e os impactos relacionados ao vício em apostas fizeram o tema ganhar espaço nos discursos dos candidatos ao Palácio do Planalto.

No geral, as propostas vão desde o endurecimento da fiscalização e restrições à publicidade até a defesa do fim das plataformas. No centro da discussão está uma questão que ultrapassa o debate eleitoral: qual é o custo econômico e social das bets para o Brasil?

O tema ganhou ainda mais força diante da divisão entre os presidenciáveis. Levantamentos recentes mostram que Lula, Romeu Zema e Renan Santos defendem uma postura de proibição ou encerramento das atividades, enquanto Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Augusto Cury propõem diferentes formas de restrição, controle ou aumento da tributação.

Lula: de regulamentação a uma postura mais dura

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a adotar um discurso mais duro em relação às bets após o aumento do endividamento da população e dos problemas associados ao vício em apostas.

A preocupação do petista está relacionada principalmente aos efeitos sociais e financeiros provocados pelas plataformas. A discussão envolve saúde mental, proteção do consumidor e prevenção ao superendividamento.

Em declarações recentes, Lula passou a defender o encerramento das bets caso não seja demonstrada uma função social para o setor. A mudança representa um endurecimento em relação ao modelo de regulamentação adotado pelo próprio governo.

Nos bastidores do governo, a discussão também envolve mecanismos de controle dos gastos dos apostadores, restrições à publicidade e medidas para impedir que pessoas em situação de vulnerabilidade comprometam sua renda com apostas.

Flávio Bolsonaro: restrição ao uso de benefícios sociais

O senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta uma proposta concentrada na proteção da renda das famílias de baixa renda. A ideia é impedir que recursos provenientes de programas sociais sejam utilizados em apostas, evitando que dinheiro destinado à alimentação e à manutenção das famílias seja direcionado às plataformas.

O candidato também propõe medidas de educação financeira e mecanismos de proteção para reduzir o endividamento provocado pelas apostas. Apesar das propostas de restrição, o foco de Flávio não é a proibição completa das bets, mas impedir que o mercado atinja grupos mais vulneráveis.

Ronaldo Caiado: contra a publicidade das bets

O candidato Ronaldo Caiado (PSD) possui uma das posições mais restritivas entre os presidenciáveis que não defendem necessariamente o fim das plataformas.

Caiado propõe a proibição da publicidade de bets em veículos de comunicação de massa e nas redes sociais. Também defende mecanismos para limitar os gastos dos apostadores e fortalecer o combate às plataformas ilegais, à lavagem de dinheiro e à manipulação de resultados esportivos.

A proposta, portanto, busca reduzir a exposição da população às apostas sem necessariamente extinguir o mercado legalizado.

Romeu Zema: defesa do fim das bets

O candidato do Novo, Romeu Zema, possui uma das posições mais radicais contra as apostas. Ele promete acabar com as bets caso seja eleito e chegou a afirmar que essa seria uma das primeiras medidas de seu governo. O candidato classifica o crescimento das plataformas como um problema relacionado à saúde mental, à produtividade e ao endividamento da população brasileira.

A proposta representa uma ruptura com a ideia de apenas regulamentar o mercado. Em vez de aumentar a fiscalização ou limitar a publicidade, Zema defende retirar as plataformas do mercado brasileiro.

Renan Santos: contra as apostas online

O candidato do Missão, Renan Santos, também defende o fim das bets, mas como parte de um discurso mais amplo contra a expansão dos jogos online e da chamada “cultura do tigrinho”. Para Renan, as plataformas representam um problema financeiro e social que não seria solucionado apenas com regulamentação.

A proposta aproxima o candidato de Zema e da posição mais recente adotada por Lula, colocando os três no grupo que defende respostas mais duras contra o setor.

Augusto Cury: impostos mais altos e combate ao vício

O candidato do Avante, Augusto Cury, aborda as bets principalmente pelo aspecto da saúde mental. Psiquiatra e escritor, Cury destaca os riscos de dependência provocados pelas apostas eletrônicas e defende uma resposta baseada em maior tributação e controle.

A ideia é elevar os impostos sobre as empresas do setor e utilizar a política tributária como instrumento para desestimular a expansão das apostas, ao mesmo tempo em que se amplia o combate ao vício. A proposta o coloca ao lado de Caiado e Flávio Bolsonaro no grupo de candidatos que defendem restrições ao mercado, mas não necessariamente sua extinção.

Medidas que já estão funcionando

O governo federal já tomou algumas medidas de prevenção de danos provocados pelas apostas. entre elas está a autoexclusão centralizada. Criada para permitir que o próprio apostador bloqueie seu acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas no país. O mecanismo utiliza o CPF e pode ser solicitado por prazo determinado ou indeterminado. ao aderir, os usuários tem as contas bloqueadas e ficam impedidos de realizar novos cadastros em casas de aposta online regulamentadas.

Aa pessoas cadastradas no Bolsa Família, programas de renegociação de dívidas como o Desenrola, beneficiários do FIES e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) estão impedidos de abrir ou manter contas em casas de aposta.

Na prática, o sistema faz a verificação do CPF no momento do cadastro e também durante o uso da plataforma. Quando identifica um usuário impedido que já possui conta, a casa de apostas tem até três dias para encerrá-la, com a obrigação de devolver integralmente o saldo existente.

A medida, no entanto, não significa que o beneficiário perderá automaticamente o benefício social por tentar apostar. O impedimento funciona no sentido contrário: o CPF é bloqueado pelas plataformas autorizadas para que a pessoa não possa utilizar o mercado legal de apostas. Segundo o Ministério da Fazenda, o bloqueio não gera outra penalidade ao beneficiário.

O prejuízo das bets vai além do dinheiro perdido

A expansão das apostas esportivas e dos jogos online passou a ocupar espaço não apenas no debate político, mas também na discussão sobre os efeitos econômicos provocados pelo setor.

Enquanto a arrecadação de impostos sobre as bets é apresentada como uma forma de compensar parte dos impactos provocados pelas apostas, especialistas apontam que o custo social do vício pode ser muito maior do que o retorno financeiro obtido pelo Estado.

A análise é do economista Irvyem Monteiro, bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e atualmente Agente de Pesquisa e Mapeamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para ele, os impactos das apostas vão muito além do dinheiro perdido pelos jogadores e atingem a economia, o sistema de saúde e a estrutura das famílias.

Segundo Irvyem, o dinheiro utilizado nas apostas deixa de circular em outros setores da economia. Em vez de ser destinado ao consumo de alimentos, roupas, serviços e outros produtos, o recurso passa a alimentar o mercado de apostas.

Ele explica que esse processo interrompe o chamado “multiplicador econômico”, mecanismo pelo qual o dinheiro circula entre diferentes setores e gera novas atividades econômicas.

“Ao mesmo tempo em que o dinheiro é destinado às apostas e aos jogos, ele deixa de circular na economia para comprar arroz, feijão, roupas e outros produtos e serviços.”

Para o economista, quando milhões de pessoas direcionam recursos para as apostas, o efeito acumulado pode representar bilhões de reais que deixam de movimentar setores tradicionais da economia.

O raciocínio coloca em dúvida uma das principais justificativas econômicas utilizadas para defender a permanência das bets: a de que a movimentação financeira do setor, por si só, representaria um benefício para a economia.

Na avaliação do economista, é necessário observar de onde vem esse dinheiro e o que deixa de ser comprado quando ele é direcionado para as apostas.

Endividamento pode provocar efeito dominó

Irvyem também chama atenção para os impactos sobre as famílias. Segundo ele, o endividamento provocado pelo vício pode levar à perda de renda, desemprego e desestruturação familiar, além de aumentar a demanda por serviços públicos de saúde e assistência social.

“Há um impacto desastroso. É realmente como um efeito dominó de calamidades que vai se desencadeando a partir do problema das apostas.”

O problema, segundo a análise, é que esses efeitos não aparecem necessariamente nas estatísticas de arrecadação das empresas.

Uma aposta perdida pode representar apenas uma pequena quantia para a plataforma, mas, para uma família que já possui renda comprometida, pode significar menos dinheiro para alimentação, contas domésticas ou pagamento de dívidas.

Quando esse comportamento se torna recorrente e passa a caracterizar dependência, o impacto deixa de ser exclusivamente individual e passa a atingir a família e, em determinados casos, os serviços públicos.

Arrecadação de impostos seria insuficiente, diz economista

Para o economista, a simples cobrança de impostos sobre as bets não seria suficiente para compensar os impactos provocados pelo setor.

Na avaliação dele, os recursos arrecadados não necessariamente cobririam os gastos adicionais que podem surgir em áreas como saúde mental, prevenção ao suicídio, assistência social e apoio a famílias atingidas pelo endividamento.

“Somente a cobrança de impostos é totalmente insuficiente para cobrir o custo social real da permissão das bets.”

A comparação feita pelo economista é com o consumo de bebidas alcoólicas. Segundo ele, não seria possível afirmar que a arrecadação de impostos sobre bebidas compensa os danos provocados pelo consumo excessivo de álcool, como problemas de saúde e acidentes.

A mesma lógica, na avaliação dele, deveria ser aplicada às apostas: a existência de uma fonte de arrecadação não significa necessariamente que o Estado consiga compensar financeiramente todos os prejuízos provocados pelo vício.

Presidenciável não consegue acabar sozinho com as bets

Apesar de o tema poder aparecer nas propostas dos candidatos à Presidência da República, uma eventual proibição das bets não dependeria exclusivamente do presidente.

Irvyem destaca que o chefe do Executivo não possui, sozinho, poder para simplesmente extinguir o setor. Uma mudança dessa magnitude dependeria também da atuação do Congresso Nacional, especialmente da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

“Ele não decide isso sozinho. O Senado e a Câmara dos Deputados também precisariam apoiar uma eventual mudança para que as bets fossem proibidas no país.”

A avaliação coloca o tema no centro de uma questão política que pode ganhar força durante a corrida presidencial: mesmo que um candidato defenda publicamente a proibição das apostas, a implementação da medida dependeria de articulação política e apoio do Legislativo.

Isso significa que uma eventual vitória de um candidato contrário às bets não representaria, automaticamente, o fim das plataformas. Seria necessário construir maioria política para alterar a legislação e definir como o mercado seria encerrado ou reorganizado.

Entre proibir, taxar ou controlar

As diferenças entre os presidenciáveis mostram que as bets se transformaram em mais um ponto de divergência na eleição de 2026. Enquanto Lula, Romeu Zema e Renan Santos defendem uma postura de proibição ou encerramento das plataformas, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Augusto Cury apresentam propostas de restrição, controle ou aumento da tributação.

As propostas, porém, partem de diagnósticos diferentes. Para alguns candidatos, o problema está principalmente na falta de controle e na exposição excessiva da população às plataformas. Para outros, a própria existência das bets representa um problema que não pode ser solucionado apenas com regulamentação.

A análise econômica acrescenta outra camada ao debate. Mais do que discutir quanto as bets arrecadam, é preciso avaliar quanto custa para a sociedade manter esse mercado.

A discussão sobre as apostas, portanto, ultrapassa a escolha entre proibir, taxar ou regulamentar. Envolve os efeitos econômicos da circulação desse dinheiro, o impacto sobre o consumo, o endividamento das famílias, os custos para os serviços públicos e as consequências sociais provocadas pelo vício.

No fim, a disputa eleitoral coloca uma pergunta que deverá acompanhar o debate sobre as bets durante a campanha: o que pesa mais para o Brasil, a arrecadação e a movimentação econômica geradas pelas apostas ou o custo social provocado por elas?

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