Eleições 2026

Campanha começa com empate no Pará e pode produzir eleição mais apertada em duas décadas

Hana Ghassan aposta na força do governo, na ampla aliança partidária e nas entregas administrativas; Daniel Santos tenta transformar o sentimento de oposição em maioria. Histórico paraense mostra que a caneta ajuda, mas nunca garantiu vitória

Por Estado do Pará Online
15/08/2026 às 23:34 • 10 min
Hana Ghassan e Daniel Santos lado a lado na eleição para o Governo do Pará em 2026

Hana Ghassan e Daniel Santos iniciam a campanha eleitoral em cenário de empate técnico.

A coordenação política de Hana escolheu iniciar a campanha com uma caminhada no centro da capital paraense. Denominada como “O Pará tá junto com as mulheres”, a candidata da situação estará neste domingo, 16, com Helder Barbalho e Chicão, a partir das 9h, no Porto Futuro II – Praça Waldemar Henrique e caminharão com apoiadores até o Theatro da Paz.

Já a coordenação política de Daniel Santos escolheu iniciar com dois eventos: “Um momento de oração, fé e união pelo nosso povo e pelo nosso Pará“, segundo foi compartilhado nas redes sociais de sua esposa, a deputada federal Alessandra Haber e a vice de Daniel, Ellayne D’Almeida. Já a tarde, Daniel e sua time estarão em Santarém, onde a partir das 16h deste domingo, 16, realizarão uma carreata com apoiadores, com saída marcada para a avenida Fernando Guilhon, em frente ao Residencial Buriti.

Dito isso, a campanha eleitoral começa oficialmente neste domingo (16) com uma pergunta que há meses acompanha a política paraense: afinal, quem chega à largada como favorito ao Governo do Pará?

A resposta mais prudente é que ainda não existe favorito absoluto.

Hana Ghassan (MDB) ocupa o Palácio dos Despachos, administra um dos maiores orçamentos estaduais do país e reúne uma aliança formada pela maioria das forças políticas do Pará. Daniel Santos (Podemos), por outro lado, atravessou toda a pré-campanha mantendo-se competitivo e chega ao período oficial sem ter sido distanciado pela estrutura governista.

A partir de agora, candidaturas, partidos e coligações poderão pedir votos, realizar comícios, caminhadas, carreatas e impulsionar propaganda na internet. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começa em 28 de agosto. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro e, se necessário, o segundo ocorrerá no dia 25, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral.

Na prática, a eleição já vinha sendo disputada havia muito tempo. A diferença é que agora começa a fase na qual alianças, programas de governo, tempo de propaganda, debates e capacidade de mobilização passam a ser medidos diante de todo o eleitorado.

Hana tem a caneta, mas precisa transformá-la em voto

Hana assumiu o governo em abril e, desde então, passou a reunir duas condições importantes: a visibilidade natural do cargo e a possibilidade de apresentar resultados concretos da administração estadual.

É o que, no vocabulário político, costuma ser descrito como estar com “a chave dos cofres públicos”. A expressão, porém, precisa ser entendida dentro dos limites da legislação. A governadora continua responsável pela execução do orçamento, pelo funcionamento dos serviços e pelas obras em andamento, mas não pode utilizar bens, servidores, publicidade ou programas públicos para beneficiar sua candidatura.

O artigo 73 da Lei das Eleições proíbe o uso eleitoral da estrutura administrativa. Desde julho também estão em vigor restrições à publicidade institucional, às transferências voluntárias de recursos e à participação de candidatos em inaugurações. O descumprimento pode resultar em multa e, nos casos mais graves, na cassação do registro ou do diploma, segundo o TSE.

A vantagem legítima de Hana está em outro lugar: governar produz agenda, exposição e oportunidade de demonstrar capacidade administrativa. Cada hospital funcionando, estrada entregue, escola reformada ou serviço ampliado pode reforçar a imagem de continuidade. Da mesma forma, cada problema sem solução também poderá ser cobrado diretamente da governadora.

Uma pesquisa Quaest divulgada em julho apontou aprovação de 49% ao governo de Hana, enquanto 30% ainda não sabiam avaliá-lo. Esse desconhecimento representa um risco, mas também revela espaço para crescimento. A campanha do MDB e aliados terá de apresentar Hana não apenas como a candidata apoiada por Helder Barbalho, mas como uma liderança com identidade, projetos e autoridade próprios.

A presença de Dirceu Ten Caten (PT) como vice aproxima a chapa do eleitorado petista e amplia a representação do sudeste paraense. Helder, candidato ao Senado, também deverá dividir palanque, estrutura e agendas com Hana. A força da coalizão é evidente. O desafio é fazer essa soma política chegar ao eleitor comum sem parecer apenas uma combinação entre partidos.

Daniel chega competitivo e tenta nacionalizar a oposição

Daniel Santos entra na campanha com um ativo que nenhum adversário pode ignorar: mesmo enfrentando a maior estrutura política do estado, permaneceu próximo de Hana nas pesquisas.

No levantamento Real Time Big Data divulgado em 4 de agosto, Hana apareceu com 31% e Daniel com 29% no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, Daniel registrou 38% e Hana, 36%. Nos dois casos, houve empate técnico dentro da margem de erro.

A pesquisa ouviu 1.600 eleitores entre 30 de julho e 3 de agosto, portanto antes do encerramento das convenções. Também incluiu nomes que não permaneceram na disputa e deixou de medir candidatos definidos posteriormente. Até agora, nenhuma pesquisa divulgada avaliou o cenário completo formado pelas sete candidaturas confirmadas.

Os números servem como fotografia daquele momento, não como previsão do resultado.

Ex-prefeito de Ananindeua, Daniel pretende apresentar sua experiência administrativa como prova de que possui condições de governar o Pará. Sua aliança com o PL fortalece o vínculo com o eleitorado conservador, enquanto a escolha de Ellayne D’Almeida, de Itaituba, para vice busca levar a chapa para além da Região Metropolitana, abrindo pontes com o oeste, o Tapajós, a Transamazônica e o eixo da BR-163.

O principal desafio será transformar o voto contrário ao grupo governista em confiança no seu próprio projeto. Eleições raramente são vencidas apenas pela rejeição ao adversário. Daniel terá de explicar como pretende financiar propostas, formar maioria política e administrar um estado com realidades tão diferentes entre Belém, Marajó, Carajás, Baixo Amazonas e regiões de fronteira.

Outras candidaturas podem influenciar o segundo turno

A polarização entre Hana e Daniel não elimina o papel das demais candidaturas.

Araceli Lemos, da Federação PSOL/Rede, busca ocupar o espaço de uma esquerda crítica ao governo estadual, com pautas relacionadas à saúde, ao saneamento, ao combate à corrupção e à defesa dos serviços públicos. A aliança do PT com Hana, entretanto, reduz o espaço disponível nesse campo político.

Well Macêdo (PSTU) e Gal Leite (UP) representam correntes de esquerda que deverão concentrar a campanha nas relações de trabalho, nos serviços públicos e nos movimentos sociais. José Moita (Democrata) e Robertinho Amigo do Povo (PRTB) tentam alcançar eleitores insatisfeitos com os grupos tradicionais.

Mesmo com percentuais menores, essas candidaturas podem influenciar os debates, retirar votos dos líderes e participar da definição de apoios em um eventual segundo turno. Em uma eleição apertada, alguns pontos percentuais deixam de ser detalhe e passam a decidir o governo.

A caneta já venceu – e também já perdeu – no Pará

A história eleitoral paraense oferece exemplos suficientes para derrubar qualquer certeza antecipada.

Em 2002, Simão Jatene, indicado pelo então governador Almir Gabriel, venceu Maria do Carmo por 51,72% a 48,28%. A diferença de apenas 3,44 pontos percentuais permanece como uma das menores das últimas décadas.

Quatro anos depois, o roteiro mudou. Ana Júlia Carepa derrotou Almir Gabriel, candidato apoiado pelo governo Jatene, com 54,93% dos votos válidos. A vitória encerrou 12 anos de domínio tucano no estado.

Em 2010, foi a vez de a oposição superar quem ocupava o governo. Simão Jatene obteve 55,74% e impediu a reeleição de Ana Júlia, que terminou com 44,26%.

A vantagem de ocupar o cargo apareceu de forma mais clara em 2014, mas por margem mínima. Jatene foi reeleito com 51,92%, contra 48,08% de Helder Barbalho – diferença de 3,84 pontos.

Em 2018, Helder derrotou Márcio Miranda, candidato apoiado pelo grupo governista, por 55,43% a 44,57%. Já em 2022, disputando a reeleição, Helder viveu o cenário oposto ao atual: venceu no primeiro turno com 70,41% dos votos válidos, contra 27,13% de Zequinha Marinho.

O retrospecto deixa uma conclusão simples: ocupar o governo oferece vantagens, mas não concede imunidade eleitoral. Da mesma forma, representar a oposição abre uma avenida, mas não garante que o eleitor queira atravessá-la.

Será a eleição mais disputada da história recente?

Existe essa possibilidade, mas ainda é cedo para transformar hipótese em certeza.

Para ser a disputa mais apertada das últimas seis eleições estaduais, a diferença final precisaria ser menor que os 3,44 pontos registrados em 2002. O empate apontado nas pesquisas sugere que isso pode acontecer, mas campanha eleitoral costuma reorganizar o cenário.

A propaganda no rádio e na televisão poderá ampliar o conhecimento sobre Hana. Os debates darão a Daniel a chance de confrontar diretamente o governo. O apoio de Lula, o desempenho das candidaturas presidenciais no Pará, a mobilização dos prefeitos e o comportamento das regiões do interior também poderão alterar o equilíbrio.

Outro dado recomenda cautela: na pesquisa Quaest de julho, 68% dos entrevistados afirmaram que ainda poderiam mudar de candidato. Isso significa que boa parte do eleitorado continua ouvindo, comparando e esperando.

No cotidiano, o eleitor não enxerga a chamada “máquina pública” como conceito abstrato. Ele percebe se há médico no hospital, água na torneira, segurança na rua, estrada para escoar a produção e professor na escola. É nessa realidade, bem distante dos gabinetes e das redes sociais, que a eleição será decidida.

Hana terá de demonstrar que a continuidade pode melhorar a vida das pessoas. Daniel precisará convencer que a mudança não representa um salto no escuro. Os demais candidatos terão de provar que são alternativas reais, e não apenas votos de protesto.

O EPOL espera que essa comparação seja feita em uma campanha limpa, ética e respeitosa. A polarização e o equilíbrio das forças indicam que haverá tensão, acusações e forte disputa de narrativas. Mas divergência política não pode servir de licença para ataques à vida privada, violência, preconceito, notícias falsas ou manipulação de imagens e vozes.

As regras eleitorais de 2026 exigem a identificação de conteúdos produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial e proíbem deepfakes e materiais falsos capazes de desequilibrar a eleição. Em uma campanha que promete ser decidida nos detalhes, a verdade não pode virar apenas mais uma peça de propaganda.

A eleição para o Governo do Pará começa sem vencedor antecipado. Hana possui a caneta, Daniel mantém a oposição mobilizada e milhões de paraenses ainda não fecharam questão. Se será a disputa mais apertada da história recente, somente as urnas poderão responder. Por enquanto, o que existe é uma corrida aberta – e a certeza de que cada voto contará.

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