Brasil

Pesquisadores alertam para impactos da expansão de data centers no Brasil

Durante debate na reunião anual da SBPC, especialistas defenderam planejamento, transparência, participação científica e contrapartidas sociais e ambientais para a instalação dos empreendimentos

Por Estado do Pará Online
28/07/2026 às 12:38 • 4 min

Foto: reprodução/ Internet

A expansão dos data centers no Brasil precisa ser acompanhada de planejamento, transparência e regras capazes de assegurar benefícios ao país e reduzir impactos socioambientais. A avaliação foi apresentada por pesquisadores durante um debate realizado nesta segunda-feira (27), em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

A discussão integrou a programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e contou com a participação dos professores Mauro Oliveira, do Instituto Federal do Ceará (IFCE), e Dan Levy, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Os pesquisadores defenderam que a instalação de grandes centros de processamento de dados seja acompanhada de políticas públicas, fiscalização e maior participação das universidades, das comunidades afetadas e da sociedade.

Brasil precisa exigir contrapartidas

Para Mauro Oliveira, o país corre o risco de repetir uma lógica histórica de exploração de seus recursos naturais sem obter contrapartidas suficientes para o desenvolvimento nacional.

“O problema não é receber data centers. O problema é receber esses investimentos sem negociação. O Brasil precisa definir o que quer exigir em troca”, afirmou.

Segundo o pesquisador, o debate sobre a instalação desses empreendimentos ainda está concentrado em poucos setores, apesar de envolver questões como consumo de energia, soberania digital e controle da infraestrutura tecnológica.

Oliveira defendeu que universidades, governos e sociedade participem da definição das condições para a implantação dos projetos.

“O papel das universidades é participar desse debate. Não somos contra os data centers. Somos contra a ausência da universidade na discussão sobre as condições em que eles estão sendo implantados”, declarou.

Consumo de energia preocupa pesquisadores

Durante o debate, Mauro Oliveira mencionou o projeto de instalação de um grande data center voltado à inteligência artificial no Ceará. Segundo ele, o empreendimento deverá consumir cerca de 300 megawatts de potência, demanda que seria equivalente à capacidade de abastecimento de milhões de pessoas.

“O mundo, hoje, não consegue produzir energia suficiente para atender à demanda projetada pelos data centers de inteligência artificial”, afirmou.

Além do consumo energético, o professor defendeu a criação de mecanismos permanentes de monitoramento, auditoria e transparência sobre esses projetos.

Impactos vão além do consumo de água e energia

Sob a perspectiva do direito ambiental, Dan Levy afirmou que os impactos dos data centers não se limitam ao consumo de água e eletricidade. Segundo o pesquisador, também devem ser considerados problemas como poluição sonora, pressão sobre recursos naturais, conflitos territoriais, aumento das desigualdades sociais e riscos para comunidades vulneráveis.

“A transição digital e a transição ecológica não podem ser tratadas como processos independentes. É preciso incorporar critérios de sustentabilidade, transparência e participação social”, defendeu.

Levy destacou que as comunidades localizadas nos territórios onde esses empreendimentos são instalados precisam participar das decisões e não apenas suportar os impactos provocados pelas operações.

Colonialismo digital

O pesquisador também relacionou a expansão dos data centers ao conceito de colonialismo digital. Nessa lógica, países do Sul Global fornecem energia, água e território para sustentar a infraestrutura tecnológica de grandes empresas do Norte Global. Para Levy, a discussão não deve se limitar à chegada de investimentos, mas considerar quem recebe os benefícios e quem suporta os custos ambientais e sociais.

“A gente não é contra o desenvolvimento. A questão é como esse desenvolvimento é realizado e quem suporta seus custos”, concluiu.

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