Política

A escolha do vice, a polarização direita x esquerda e a disputa pelo voto religioso nas eleição do Pará em 2026

Por Estado do Pará Online
05/07/2026 às 15:02 • 6 min
Montagem com fotos de Daniel Santos, Helder Barbalho, Hana, Zequinha Marinho e Éder Mauro

A sucessão estadual coloca frente a frente dois projetos políticos que disputam o eleitorado em meio à polarização nacional e à busca pelo apoio de diferentes segmentos religiosos. Imagem: Ilustração

As pesquisas eleitorais divulgadas ao longo de 2026 apontam que a disputa pelo Governo do Pará caminha para uma das eleições mais polarizadas da história recente do estado. Embora o debate local envolva temas como gestão pública, infraestrutura, segurança e desenvolvimento regional, o ambiente midiático do no político paraense passa a reproduzir, cada vez mais, a divisão nacional entre os campos identificados com a esquerda e a direita.

Os levantamentos mais recentes mostram uma disputa equilibrada entre a governadora Hana Ghassan (MDB), apoiada por Helder Barbalho e o ex-prefeito de Ananindeua Daniel Santos (Podemos). Em diferentes institutos, a diferença entre ambos oscila dentro da margem de erro ou permanece reduzida, indicando um cenário altamente competitivo e equilibrado.

Ou seja, qualquer um que cante vitória neste momento, corre o risco de ser surpreendido pelo voto flutuante, que são os indecisos, a maioria dos entrevistados pelos institutos de pesquisa.

Uma eleição que deixou de ser apenas estadual

A principal transformação observada é que a disputa deixou de representar apenas uma avaliação dos governos locais.

Hoje existem dois grandes campos narrativos.

De um lado, Hana Ghassan representa a continuidade administrativa do grupo político liderado por Helder Barbalho, cuja gestão apresenta elevado volume de investimentos públicos, obras estruturantes e forte presença institucional em praticamente todas as regiões do estado.

Ao mesmo tempo, essa continuidade também carrega um desafio político inevitável: parte do eleitorado demonstra sinais de desgaste após vários anos de predominância da família Barbalho na política estadual. Em eleições sucessivas, cresce entre determinados segmentos um discurso favorável à alternância de poder, independentemente da avaliação da gestão.

Esse fenômeno é conhecido na ciência política como “fadiga governamental”: mesmo governos com índices positivos passam a enfrentar desejo de renovação após longos períodos de comando.

Do outro lado, Daniel Santos consolidou uma mudança estratégica significativa.

Após romper sua antiga aliança política com o grupo Barbalho, aproximou-se do campo conservador paraense, recebendo apoio de lideranças associadas ao bolsonarismo, entre elas o deputado federal Éder Mauro, o senador Zequinha Marinho e outros parlamentares identificados com a direita, mesmo que haja críticas internas neste setor pelo comportamento de Daniel junto à esquerda.

Na prática, Daniel passa a disputar o eleitorado que nacionalmente se identifica com o ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto Hana permanece vinculada à aliança construída entre MDB e PT no Pará.

O voto religioso torna-se uma variável estratégica

Outro elemento que ganha relevância é o comportamento do eleitorado cristão.

O Pará possui uma das maiores proporções de eleitores católicos e evangélicos do país. Embora esses grupos não votem de forma homogênea, pesquisas nacionais e locais mostram que segmentos evangélicos tendem, em média, a apresentar maior identificação com candidaturas conservadoras e alinhadas ao campo político da direita.

A premissa de que Hana não teria apoio majoritário entre católicos e evangélicos, enquanto Daniel concentraria maior preferência nesses segmentos, não é algo que possa ser afirmado como fato sem pesquisas específicas que demonstrem esse recorte religioso. Os levantamentos públicos mais amplamente divulgados sobre a disputa estadual não trazem, até o momento, cruzamentos detalhados por religião que permitam essa conclusão.

Ainda assim, do ponto de vista estratégico, o eleitorado cristão tende a ser um segmento disputado intensamente pelas campanhas. Por isso, o governo Helder/Hana vem destinando recursos volumosos, ou doações de terrenos e outros benefícios, tanto para a igreja católica, quanto para obras e eventos evangélicos.

A escolha do vice passa a ser mais importante do que nunca

Nesse cenário, a definição dos candidatos a vice-governador deixa de ser apenas uma composição partidária.

Ela passa a cumprir funções eleitorais bastante específicas.

Para Hana Ghassan, um vice pode ajudar a:

  • ampliar presença junto ao eleitorado evangélico;
  • reduzir resistências em segmentos conservadores;
  • fortalecer a narrativa de renovação dentro da continuidade administrativa;
  • ampliar presença regional em áreas onde Daniel apresenta maior competitividade.

Já Daniel Santos pode buscar um vice que:

  • dialogue com setores moderados;
  • amplie sua penetração em regiões onde o MDB tradicionalmente possui forte estrutura;
  • reforce credibilidade administrativa e experiência de gestão;
  • diminua resistências de eleitores que desejam mudança, mas demonstram preocupação com estabilidade institucional.

Em ambos os casos, o vice deixa de representar apenas equilíbrio partidário e passa a funcionar como instrumento de expansão eleitoral.

Quem poderá representar “todos os cristãos”?

A pergunta sobre qual candidato será percebido como representante “de todos os cristãos” não pode ser respondida objetivamente neste momento.

Cristãos não formam um bloco eleitoral único.

Há diferenças importantes entre:

  • católicos praticantes;
  • católicos não praticantes;
  • evangélicos históricos;
  • pentecostais;
  • neopentecostais;
  • movimentos independentes.

Além disso, fatores como renda, escolaridade, região e avaliação de governo também influenciam o voto.

Por isso, qualquer afirmação categórica de que um candidato representa “todos os cristãos” extrapolaria o que as evidências disponíveis permitem concluir.

As estratégias que tendem a dominar a campanha

Independentemente dos nomes escolhidos para vice, algumas tendências parecem claras.

A campanha de Hana deverá enfatizar:

  • continuidade administrativa;
  • estabilidade política;
  • obras e investimentos realizados;
  • capacidade de governabilidade;
  • defesa da parceria institucional entre Governo Federal e Governo Estadual.

Já a campanha de Daniel tende a explorar:

  • discurso de mudança;
  • alternância de poder;
  • aproximação com o eleitorado conservador;
  • combate ao desgaste associado ao longo período do grupo Barbalho no comando do estado;
  • identificação com pautas de segurança pública, costumes e valores tradicionais.

Uma eleição nacionalizada

As pesquisas divulgadas até aqui indicam que a disputa paraense caminha para uma eleição fortemente influenciada pelo ambiente político nacional. O equilíbrio entre Hana Ghassan e Daniel Santos, observado em diferentes levantamentos, sugere que a campanha poderá ser decidida por segmentos ainda pouco consolidados, como os eleitores indecisos, moderados e parte do eleitorado religioso.

Nesse contexto, além da avaliação das gestões e das alianças partidárias, fatores como a composição das chapas, a capacidade de dialogar com diferentes grupos sociais e a construção de uma narrativa capaz de ultrapassar a polarização tendem a exercer influência relevante sobre o resultado final. A evolução desse cenário dependerá das campanhas, das futuras pesquisas e do comportamento do eleitorado ao longo do processo eleitoral.

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