Depois de quase duas décadas de queda, o Brasil voltou a registrar crescimento no número de fumantes, segundo dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. O aumento reacende o alerta para doenças associadas ao tabagismo, como o câncer de boca, tema da campanha Maio Vermelho.
De acordo com a pesquisa, em 2006, quando o levantamento começou, 15,7% dos brasileiros com mais de 18 anos se declaravam fumantes. Ao longo dos anos, o índice apresentou queda contínua, chegando a 9,2% em 2023. No entanto, os dados coletados em 2024 apontam uma alta significativa, elevando o percentual para 11,5% da população adulta.
A cirurgiã-dentista Gabriela Avertano Rocha, especialista em estomatologia do Centro de Tratamento Oncológico (CTO), atribui parte desse crescimento ao avanço do uso de cigarros eletrônicos entre os jovens.
“Observamos uma mudança de comportamento impulsionada pela percepção equivocada de que esses dispositivos seriam menos nocivos do que o cigarro comum. Essa interpretação reduz a percepção de risco e favorece a iniciação. Esses dispositivos viciam rapidamente e explicam a retomada do crescimento do tabagismo no Brasil”, afirma.
Uso de vapes entre adolescentes preocupa
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reforça a preocupação. O levantamento ouviu mais de 12 milhões de estudantes de 13 a 17 anos das redes pública e privada de ensino e revelou que 30% dos adolescentes entrevistados já experimentaram cigarros eletrônicos.
Segundo especialistas, a popularização dos vapes tem ampliado a exposição precoce à nicotina e outras substâncias potencialmente prejudiciais à saúde.
Maio Vermelho reforça prevenção ao câncer oral
A discussão ganha ainda mais relevância durante o Maio Vermelho, campanha voltada à conscientização sobre o câncer de boca, doença frequentemente diagnosticada em estágios avançados e que tem o tabagismo como principal fator de risco.
O câncer oral pode atingir língua, gengivas, lábios, céu da boca e parte interna das bochechas. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o Brasil deve registrar cerca de 17.190 novos casos anuais da doença no triênio entre 2026 e 2028.
“O câncer oral é um importante problema de saúde pública, principalmente por sua evolução silenciosa. Em muitos casos, os sinais iniciais são pouco valorizados, o que faz com que o paciente procure atendimento já em fases mais avançadas”, destaca Gabriela.
Sinais de alerta para câncer de boca
Especialistas orientam que alguns sintomas devem ser investigados imediatamente, principalmente quando persistem por mais de 15 dias:
- Feridas na boca que não cicatrizam;
- Manchas brancas ou avermelhadas persistentes;
- Dor ou dificuldade para mastigar e engolir;
- Sensação de corpo estranho na garganta;
- Dormência na cavidade oral;
- Ínguas persistentes no pescoço;
- Mau hálito constante.
“Lesões persistentes na cavidade oral devem ser consideradas sinais clínicos relevantes e exigem investigação imediata”, reforça a especialista.
Tabagismo gera impacto bilionário na saúde pública
Além das consequências clínicas, o tabagismo também gera forte impacto econômico. Dados do INCA apontam que, para cada R$ 1 de lucro da indústria do tabaco, o sistema de saúde brasileiro gasta mais de R$ 5 com doenças relacionadas ao consumo de cigarro, totalizando cerca de R$ 153 bilhões anuais.
Entre os principais fatores de risco para o câncer de boca estão:
- Tabagismo, incluindo cigarros eletrônicos, narguilé e tabaco mascado;
- Consumo excessivo de álcool;
- Exposição solar sem proteção;
- Dieta pobre em nutrientes;
- Infecção por HPV.
- A combinação entre álcool e tabaco potencializa significativamente o risco da doença.
Diagnóstico precoce aumenta chances de cura
O diagnóstico do câncer de boca é realizado por meio de exame clínico e confirmado com biópsia. Quando identificado precocemente, as chances de cura são elevadas.
“O exame clínico da cavidade oral é uma ferramenta simples, porém extremamente estratégica. A identificação precoce permite tratamentos menos invasivos e impacta diretamente na qualidade de vida dos pacientes”, explica Gabriela.
A prevenção inclui abandono do tabagismo, consumo moderado de álcool, alimentação equilibrada e acompanhamento odontológico regular. Segundo a especialista, a conscientização sobre os sinais da doença é fundamental para reduzir os índices de diagnóstico tardio e a mortalidade associada ao câncer oral.
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