Indígenas Kayapó e Panará aderem a protesto contra hidrovias e bloqueiam acesso a porto da Cargill em Santarém - Estado do Pará Online

Indígenas Kayapó e Panará aderem a protesto contra hidrovias e bloqueiam acesso a porto da Cargill em Santarém

Mobilização reúne cerca de 1,2 mil pessoas no oeste do Pará; manifestantes exigem revogação do decreto que autoriza concessão de hidrovias à iniciativa privada e apontam falta de consulta prévia.

O protesto que bloqueia o acesso ao porto da multinacional Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, ganhou novos reforços nesta semana. Representantes dos povos Kayapó e Panará, vindos da região do Alto Xingu, em Mato Grosso, e de áreas do Pará, juntaram-se na última segunda-feira (16) à mobilização iniciada em 22 de janeiro.

A manifestação, que já dura quase um mês, é liderada por indígenas das regiões do Baixo e Médio Tapajós e atualmente reúne cerca de 1,2 mil pessoas acampadas nas proximidades do terminal portuário. Na última sexta-feira (13), indígenas Munduruku do Alto Tapajós também aderiram ao movimento, ampliando a representatividade e a pressão sobre o governo federal.

O principal alvo dos manifestantes é o Decreto 12.600/2025, que autoriza a concessão de hidrovias à iniciativa privada. Os indígenas afirmam que a medida foi publicada sem a realização de licença ambiental e sem a consulta livre, prévia e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) , da qual o Brasil é signatário.

Segundo os líderes do movimento, o decreto abre caminho para a transformação dos rios em hidrovias voltadas ao escoamento de commodities, como soja e milho, o que traria impactos socioambientais severos para as comunidades tradicionais da região.

Para os povos indígenas, a dragagem dos rios necessária para viabilizar o transporte de grandes embarcações ameaça não apenas o meio ambiente, mas também o modo de vida tradicional das comunidades ribeirinhas e aldeias da região. Os manifestantes apontam que as obras podem atingir todo o leito do rio Tapajós, que abrange municípios como Santarém, Belterra, Aveiro, Itaituba, Trairão e Jacareacanga.

A preocupação se estende à população ribeirinha não indígena, que também depende dos recursos hídricos para sobrevivência e sustento. O bioma amazônico como um todo seria afetado pelas intervenções no leito dos rios, alertam os manifestantes.

A Cargill, multinacional do agronegócio sediada no Minnesota, Estados Unidos, opera em Santarém justamente no escoamento de grãos pelo rio Tapajós. O porto da empresa tornou-se o símbolo físico da luta dos indígenas, que bloqueiam seu acesso como forma de pressionar o governo federal a revogar o decreto.

A escolha do alvo não é aleatória: a Cargill é uma das principais beneficiárias do modelo de escoamento de commodities que os indígenas criticam, e o bloqueio de seu terminal afeta diretamente a logística de exportação da empresa.

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