O Re-Pa 781 expôs um aspecto que vai além da parte técnica e física. Mesmo em um cenário adverso e com um jogador a menos, o Paysandu, recém-rebaixado à Série C, sustentou o jogo sem perder a parte mental e organização coletiva, garantindo o empate diante do maior rival, que retornou à elite do futebol brasileiro após 32 anos.
O resultado se explica por um processo construído fora das quatro linhas. No decorrer de sete meses, o acompanhamento psicológico desenvolvido no clube alviceleste foi fundamental para fortalecer o elenco em meio à pressão, às frustrações e ao peso histórico do maior clássico da Amazônia.

A CIDADE MUDA, O TRABALHO TAMBÉM
O clima de clássico altera a rotina da cidade, dos torcedores e, inevitavelmente, dos atletas. Para a psicóloga do Paysandu, Thaysse Gomes, não há como ignorar esse cenário, embora o foco do trabalho não esteja no adversário, mas no desempenho individual e coletivo.
“A cidade respira diferente o clássico. Não tem como o trabalho ser exatamente igual. Mas eu estaria mentindo se dissesse que faço algo específico para o clássico. O trabalho é para o bom desempenho do atleta em campo, independentemente de quem é o adversário”, explicou.
Segundo ela, o acompanhamento psicológico é contínuo e vem sendo construído desde a pré-temporada, com ações semanais junto ao elenco. Em momentos como o Re-Pa, o foco passa a ser a sustentação emocional diante de um contexto naturalmente mais carregado.
ELENCO NOVO, PRESSÃO ANTIGA

O Paysandu passou por uma reformulação quase completa após a temporada passada. Com poucos remanescentes e muitos atletas vivendo o clássico pela primeira vez, o desafio psicológico se intensifica. A ansiedade, segundo Thaysse, é inevitável, inclusive para quem já disputou outros Re-Pas.
“Por mais que seja o décimo ou o trigésimo Re-Pa, é sempre uma experiência única. Sempre tem frio na barriga”, destacou.
Nesse cenário, a coesão do grupo se torna essencial. Atletas mais experientes acabam exercendo papel fundamental ao auxiliar os mais jovens, especialmente diante do impacto inicial de entrar em campo e encarar o estádio lotado, com a torcida que se faz presente independentemente do momento.
RECONSTRUÇÃO APÓS O REBAIXAMENTO
O Paysandu também precisou lidar recentemente com o impacto emocional do rebaixamento à Série C. Marcado por uma campanha irregular, o time bicolor foi rebaixado como lanterna da Série B 2025, posição ocupada pela equipe ao longo de quase toda a competição.
De acordo com a psicóloga, o trabalho passa por reconhecer o impacto do momento vivido, sem ignorá-lo, mas transformando a frustração em aprendizado e reconstrução.
“A gente sai muito abalado, é natural. Não foi um período fácil. Mas é preciso entender o que aconteceu, como melhorar e agir em cima disso”, afirmou.
A possibilidade de acompanhar a equipe desde o início da temporada tem sido um diferencial. Para Thaysse, que chegou ao clube no decorrer da 14ª rodada da Série B do ano passado, o tempo de trabalho permite não apenas o fortalecimento individual dos atletas, mas também a construção de uma cultura interna mais sólida.
“A SAÚDE MENTAL MUDA O JOGO”
Mesmo ainda em processo, os resultados já começam a aparecer, segundo a profissional. Thaysse destaca o espaço que o clube tem dado à psicologia e defende que o tema precisa ganhar cada vez mais visibilidade no futebol brasileiro.
“A saúde mental muda o jogo. Os clubes precisam entender essa importância e saber abraçar esse profissional”, ressaltou.

Em um clássico marcado por contextos opostos e pressão extrema, o empate no Re-Pa 781 escancarou que, além da bola e da tática, fortalecer a maturidade emocional pode ser decisivo, especialmente em tempos de reconstrução.
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