Indígenas de diversas etnias ocuparam, por volta das 21h20 desta quarta-feira (4), o Aeroporto Internacional de Santarém Maestro Wilson Fonseca, no oeste do Pará. A ação representa um novo capítulo da mobilização iniciada ainda no período da tarde, quando manifestantes fecharam a principal via de acesso ao terminal aéreo.
Mais cedo, o grupo bloqueou a rodovia Fernando Guilhon com troncos de árvores e formou um cordão humano, provocando um longo congestionamento e dificultando a circulação de moradores e viajantes. Durante o protesto, os indígenas também ocuparam a sede da empresa Cargill. Ao todo, a mobilização já completou 14 dias nesta quarta feira (04).
Protesto contra decreto federal
Segundo o movimento indígena, a ocupação do aeroporto é um desdobramento direto das manifestações que pedem a revogação do Decreto nº 12.600/2025, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A norma autoriza a concessão de hidrovias à iniciativa privada e permite a dragagem do rio Tapajós.
Para os manifestantes, a medida pode causar graves impactos socioambientais e afetar diretamente os territórios e modos de vida das comunidades tradicionais da região. As lideranças afirmam que o decreto foi publicado sem consulta prévia aos povos indígenas e abre caminho para grandes intervenções no rio, como dragagem, construção de portos e implantação de hidrovias.
A liderança Alessandra Munduruku destacou que os efeitos vão além do meio ambiente. “Quando mexe com o rio, mexe com o nosso mundo espiritual. O Tapajós é vida, é saúde, é o caminho para as aldeias. Ninguém quer dragagem no rio Tapajós”, afirmou.
Já Auricélia Arapiun alertou para o risco de privatização das hidrovias. “É um decreto de privatização. O rio pode passar para a iniciativa privada fazer o que quiser, sem respeitar quem sempre viveu aqui”, disse.
Alertas do MPF
O Ministério Público Federal (MPF) também aponta possíveis consequências da continuidade das obras, como a liberação de metais pesados, incluindo mercúrio e sedimentos, comprometendo a qualidade da água e representando risco direto à saúde das populações que dependem do rio para consumo e pesca.
O órgão alerta ainda para prejuízos às populações de peixes e outros organismos aquáticos, base da cadeia alimentar local, devido ao aumento da turbidez da água e alterações no ecossistema. Segundo o MPF, a dragagem pode provocar a destruição de habitats essenciais para a reprodução, alimentação e migração de espécies ameaçadas, como botos (rosa e tucuxi), peixe-boi amazônico, quelônios e aves aquáticas.
Voos cancelados
A reportagem procurou o Ministério de Portos e Aeroportos, o Ministério dos Povos Indígenas e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em busca de posicionamento e aguarda retorno.
A Aena Brasil, concessionária responsável pelo Aeroporto Internacional de Santarém, informou que todos os voos previstos para o fim da noite desta quarta-feira (4) e a madrugada desta quinta-feira (5) foram cancelados.
“Há uma manifestação pacífica de indígenas na frente do terminal de passageiros. A Aena recomenda que os passageiros entrem em contato com as companhias aéreas”, informou a empresa em nota.
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