Um raio atingiu a área onde apoiadores participavam de uma mobilização política no domingo (25), na Praça do Cruzeiro, em Brasília, durante um ato que antecedia a caminhada liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Segundo informações do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, 89 pessoas foram atendidas no local, algumas encaminhadas para unidades de saúde. Não houve registro de mortes.
O episódio ocorreu em meio a uma mobilização convocada por setores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e rapidamente passou a integrar a disputa de narrativas nas redes sociais, com interpretações que extrapolaram o campo factual e entraram no terreno simbólico e religioso.
Na comunicação política, a estratégia de “caminhar com o povo” é um recurso conhecido. Ao abrir mão de palanques, carros oficiais ou estruturas institucionais, o líder se apresenta como alguém acessível, disposto a se expor fisicamente e a dividir o espaço com seus apoiadores. O corpo do líder, nesse contexto, deixa de ser apenas presença e passa a funcionar como elemento central da narrativa política.
Caminhar como ferramenta histórica de mobilização
Historicamente, marchas e caminhadas foram utilizadas como instrumentos de construção de liderança e identidade coletiva. Na Alemanha do período entre guerras, Adolf Hitler e o Partido Nazista fizeram da presença física em atos de rua e marchas um eixo central de propaganda, associando exposição, risco e sacrifício à ideia de destino histórico e liderança incontestável.
No Brasil contemporâneo, Jair Bolsonaro adotou estratégia semelhante, sobretudo a partir da campanha de 2018, com caminhadas, contato direto com apoiadores e rejeição a mediações institucionais. O atentado sofrido naquele ano foi incorporado à narrativa política como símbolo de perseguição e sacrifício, fortalecendo vínculos emocionais com sua base, especialmente entre eleitores de perfil religioso.
É nesse mesmo campo simbólico que se insere a caminhada liderada por Nikolas Ferreira. O gesto de caminhar em meio aos apoiadores, amplamente registrado e difundido nas redes sociais, reforça uma narrativa de proximidade, coragem e identificação com a base. Cada imagem do percurso passa a funcionar como evidência visual de apoio popular.
Raio, fé e disputa de sentidos
O episódio do raio introduziu um elemento inesperado nessa estratégia. Do ponto de vista científico, trata-se de um fenômeno natural. No ambiente digital, porém, o fato foi rapidamente apropriado por narrativas concorrentes. Entre apoiadores, predominou inicialmente a leitura de livramento ou proteção divina, destacando que o deputado não foi atingido. Em paralelo, passou a ganhar força, em setores críticos, a interpretação de que o ocorrido representaria um “castigo de Deus”.
Essa leitura, que circula com intensidade em redes sociais e grupos de mensagens, desloca o eixo tradicional da vitimização política. Diferentemente de outros episódios históricos, em que a agressão ao líder produziu consenso simbólico em torno da ideia de perseguição injusta, o caso do raio abriu uma disputa mais fragmentada e polarizada, especialmente em um contexto de forte religiosidade.
Analistas avaliam que, entre eleitores religiosos já alinhados, a narrativa de provação ou proteção tende a reforçar o vínculo emocional com o líder e a intensificar o engajamento. Entre críticos, a leitura de punição divina opera como instrumento de deslegitimação simbólica. Em ambos os casos, o resultado imediato é a amplificação do episódio e o aumento da centralidade da caminhada e do próprio deputado no debate público.
A recorrência desse tipo de estratégia reacende o debate sobre os limites entre comunicação política e mobilização emocional. Quando a imagem do líder passa a se apoiar menos em propostas e mais em episódios de risco, sacrifício ou sinais interpretados como sobrenaturais, o debate político tende a se afastar do campo programático e a se concentrar no terreno da crença, onde a disputa por sentidos se torna mais intensa.
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