Eleições 2026

Pará chega à metade de agosto sem pesquisa sobre impacto das convenções e fatos recentes

Até agora, nenhuma pesquisa divulgada mediu todas as chapas que saíram das convenções. Doxa e Alvo fizeram os únicos novos registros do mês, enquanto eleitor segue sem dados sobre as escolhas dos vices, as tensões partidárias, o vídeo atribuído a Daniel Santos e a disputa pelo voto evangélico.

Por Estado do Pará Online
11/08/2026 às 11:14 • 10 min
Prancheta de pesquisa vazia diante do mapa do Pará e de gráficos eleitorais incompletos em azul e vermelho

Doxa e Alvo fizeram os únicos novos registros de pesquisas eleitorais no Pará até 11 de agosto. Arte: EPOL

O Pará se aproxima da metade de agosto sem uma pesquisa pública capaz de medir o cenário eleitoral formado depois das convenções partidárias. As chapas foram definidas, alianças mudaram, crises ganharam repercussão nacional e o eleitorado religioso passou ao centro das articulações, mas ainda não existe um levantamento divulgado que permita avaliar os efeitos desses acontecimentos.

Consulta realizada pelo Estado do Pará Online ao sistema PesqEle mostra que, do início de agosto até esta terça-feira (11), apenas dois institutos registraram novas pesquisas no Pará: Doxa e Alvo. Os dois registros foram realizados na segunda-feira (10).

Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral, devem transcorrer cinco dias completos entre o registro e a divulgação, sem contar as datas inicial e final. Dessa forma, os estudos poderão ser apresentados, em princípio, a partir de domingo (16), justamente quando começa oficialmente a propaganda eleitoral. A Resolução nº 23.747/2026 estabelece o prazo e as informações metodológicas obrigatórias.

O registro, entretanto, não obriga o instituto ou o contratante a publicar os resultados. Como explica o Ministério Público Eleitoral, um levantamento pode ser registrado e, ainda assim, não ser divulgado.

Institutos que vinham divulgando números desapareceram do debate

O intervalo chama atenção porque Doxa, Acertar, Veritá, Veritate, Simetria e outros institutos vinham registrando e divulgando pesquisas com frequência durante a pré-campanha.

Os resultados eram diferentes e, algumas vezes, contraditórios. Enquanto determinados estudos apontavam Daniel Santos numericamente à frente, outros mostravam Hana Ghassan na liderança ou os dois em empate técnico.

A última pesquisa estadual divulgada foi a do Real Time Big Data, apresentada em 4 de agosto, mas registrada ainda em julho. Hana apareceu com 31% e Daniel com 29%, dentro da margem de erro. O trabalho de campo ocorreu entre 30 de julho e 3 de agosto, antes do encerramento das convenções. Veja o levantamento ouviu 1.600 eleitores e foi publicado pelo EPOL.

Além de ter sido realizado antes das definições partidárias, o questionário apresentava Mário Couto e Raquel Brício como candidatos ao governo. Mário não foi confirmado, enquanto Raquel passou a integrar a chapa presidencial da Unidade Popular. Candidatos anunciados posteriormente, como Gal Leite, Robertinho Amigo do Povo e José Moita, não foram incluídos.

A consequência é simples: até agora, nenhuma pesquisa divulgada mediu todas as chapas que saíram das convenções.

Vices foram escolhidos, mas impacto permanece desconhecido

A ausência de novas pesquisas impede medir um dos acontecimentos mais importantes das convenções: a definição das candidaturas a vice-governador.

Depois de semanas de tensão, o MDB confirmou Dirceu Ten Caten como vice de Hana Ghassan. A escolha preservou a aliança com o PT e garantiu espaço formal ao partido do presidente Lula na chapa estadual.

A confirmação, contudo, ocorreu depois de uma convenção do MDB marcada pela ausência de referências a Lula nos principais discursos e pelo adiamento do anúncio de Dirceu. O episódio gerou insatisfação em setores petistas e alimentou dúvidas sobre o grau de integração entre as duas legendas.

Não há pesquisa posterior capaz de mostrar se a presença de Dirceu consolidou o eleitorado do PT em torno de Hana, se reduziu o desconforto da militância ou se aumentou a resistência de segmentos conservadores e evangélicos à chapa governista.

Na oposição, Daniel Santos escolheu Ellayne D’Almeida, do PL de Itaituba, para a vice. A composição assegurou ao PL participação na chapa, ampliou a representação feminina e criou uma ponte com o Tapajós, o Baixo Amazonas, a Transamazônica e a região da BR-163.

Também não há dados públicos mostrando se Ellayne aumentou a competitividade de Daniel no oeste do Pará ou se a aliança com o PL fortaleceu sua identificação com o eleitorado conservador.

Vídeo teve repercussão, mas ninguém mediu o impacto

Outra pergunta sem resposta envolve a circulação de um vídeo íntimo atribuído a Daniel Santos na véspera da convenção do Podemos.

O conteúdo alcançou grupos de mensagens, redes sociais e veículos nacionais. Daniel e a deputada federal Alessandra Haber, sua esposa, afirmaram que a vida privada do casal diz respeito à família e classificaram a divulgação como ataque político. A Justiça Eleitoral determinou a remoção de postagens e a identificação de perfis responsáveis.

A decisão, entretanto, não declarou que o vídeo fosse verdadeiro, falso ou manipulado. Também não confirmou a identidade das pessoas, quem realizou a gravação ou a alegação de que teria ocorrido uma relação extraconjugal. O EPOL explicou os limites da decisão judicial e os cuidados necessários na cobertura.

O caso pode ter produzido efeitos diferentes. Parte do eleitorado pode ter desaprovado a conduta sugerida pelas imagens. Outra parcela pode ter entendido o episódio como violação de privacidade e ataque eleitoral, gerando solidariedade ao candidato. Também é possível que a reação pública de Alessandra, ao permanecer ao lado do marido, tenha reduzido danos entre eleitores que valorizam a preservação da família.

Não existe, porém, pesquisa pública que tenha perguntado quantos eleitores tomaram conhecimento do caso, como avaliaram a reação do casal ou se o episódio alterou a intenção de voto.

O próprio EPOL registrou que a campanha de Daniel avaliava medir internamente a repercussão. Até agora, nenhum resultado foi tornado público.

Polarização pode relativizar questões morais

A pergunta mais delicada é se eleitores religiosos, identificados com discursos de defesa da família, relativizariam a suposta relação extraconjugal atribuída a Daniel.

Estudos sobre comportamento eleitoral mostram duas possibilidades. Em ambientes polarizados, eleitores tendem a julgar com mais tolerância políticos de seu próprio campo, especialmente quando interpretam a acusação como ataque promovido pelo adversário. Pesquisa experimental publicada pela revista American Politics Research identificou diferenças partidárias na disposição dos eleitores de punir transgressões morais.

Por outro lado, pesquisas também indicam que escândalos envolvendo possível hipocrisia podem provocar desgaste maior quando o político constrói sua imagem pública sobre valores que a conduta atribuída a ele aparentemente contraria. Um estudo sobre reações a casos de adultério político apontou avaliações mais negativas quando os eleitores percebiam incoerência entre discurso e comportamento.

Esses estudos não permitem transportar automaticamente conclusões de outros países para o Pará. Eles apenas demonstram que os dois efeitos são possíveis: punição pela aparente contradição ou proteção do candidato por identidade política e sentimento de perseguição.

Somente uma pesquisa estadual, com cruzamentos por religião, conhecimento do episódio e intenção de voto, poderá revelar qual reação prevaleceu.

Samuel Câmara conseguirá transferir o voto evangélico?

A disputa pelo eleitorado evangélico representa outra incógnita.

Antes das convenções, lideranças ligadas a diferentes igrejas pressionaram para que Hana escolhesse o deputado estadual e pastor Josué Paiva como vice. O movimento defendia uma representação evangélica direta na chapa e resistia à indicação do PT.

O MDB manteve Dirceu, mas posteriormente incluiu o pastor Samuel Câmara entre os suplentes de Helder Barbalho na disputa ao Senado, ao lado de Jader Barbalho. Politicamente, a escolha pode ser interpretada como tentativa de preservar um canal com as Assembleias de Deus e reduzir o desconforto provocado pela derrota da proposta de um vice evangélico.

Resta saber se uma suplência ao Senado possui força suficiente para produzir transferência de votos. O eleitor não vota separadamente no suplente, e a capacidade eleitoral de Samuel dependerá de seu envolvimento efetivo na campanha, da adesão das lideranças e do grau de unidade entre igrejas e convenções.

Não há base para afirmar que Samuel Câmara levará a maioria dos evangélicos para Helder e Hana. O segmento religioso não vota de forma uniforme. Assembleias de Deus, igrejas históricas, neopentecostais, Quadrangular, Universal e ministérios independentes possuem lideranças, interesses e comportamentos distintos.

Embora tendências nacionais indiquem maior aproximação de parcelas evangélicas com candidaturas conservadoras, as pesquisas estaduais divulgadas até agora não apresentaram cruzamentos por religião capazes de provar que Daniel já possui a maioria desses votos.

Pesquisas internas podem explicar parte do silêncio

Uma das hipóteses é que as principais campanhas estejam realizando pesquisas destinadas exclusivamente ao consumo interno.

Esse tipo de levantamento é comum em disputas competitivas. Serve para testar discursos, rejeição, alianças, vulnerabilidades, efeitos de crises, desempenho regional e estratégias de comunicação. Como os resultados não são destinados ao conhecimento público, não precisam ser registrados, desde que nenhuma informação seja divulgada.

O entendimento já foi reconhecido pela Justiça Eleitoral: pesquisas feitas para uso interno de partidos ou candidatos não violam as regras eleitorais se os dados permanecerem reservados. Se números ou percentuais forem publicados, apresentados à imprensa ou distribuídos nas redes, porém, passam a existir riscos de caracterização de divulgação irregular.

Em uma eleição polarizada e sem favorito consolidado, manter resultados sob sigilo pode ser estrategicamente mais útil do que divulgá-los. Uma campanha pode conhecer suas fragilidades sem entregar informações ao adversário. Também pode evitar que um levantamento desfavorável produza manchetes, desmobilize apoiadores ou prejudique a arrecadação.

Isso não significa que existam pesquisas internas em andamento ou que institutos estejam escondendo resultados. Trata-se de uma hipótese compatível com o funcionamento das campanhas, mas que não pode ser apresentada como fato sem confirmação dos responsáveis.

Outro motivo possível é a espera pela definição completa das candidaturas. Os partidos têm até 15 de agosto para apresentar os pedidos de registro. Institutos podem ter decidido aguardar esse prazo para evitar questionários com nomes que já não estão na disputa.

Também existe um ambiente de maior cautela jurídica. Em julho, a Justiça Eleitoral suspendeu a divulgação de uma pesquisa do Veritá após apontar falhas relacionadas à distribuição geográfica da amostra e à comprovação do autofinanciamento. A decisão fixou multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento.

A ausência de números também produz desigualdade

Quando as campanhas dispõem de pesquisas internas e o público não possui levantamentos atualizados, cria-se uma assimetria de informação. Candidatos podem ajustar discursos, agendas e alianças com base em dados que eleitores, adversários menores e veículos de imprensa desconhecem.

As pesquisas da Doxa e da Alvo poderão começar a preencher essa lacuna a partir de domingo. Mais importante do que saber apenas quem aparece numericamente à frente será observar quais perguntas foram feitas e se os estudos medirão os fatos que efetivamente mudaram a eleição.

O Pará precisa saber se Dirceu agregou o PT, se Ellayne ampliou Daniel no interior, se o vídeo íntimo causou desgaste ou solidariedade e se Samuel Câmara alterou a posição do eleitorado evangélico.

Até que esses dados apareçam, qualquer resposta será mais torcida do que ciência e, em eleição polarizada, palpite costuma vestir terno de certeza com uma facilidade impressionante.

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