Depois de 35 dias de ocupação, a sede da Cargill, em Santarém, foi oficialmente desocupada por indígenas de diversas etnias. A mobilização reuniu mais de mil participantes, incluindo lideranças vindas de outros estados e se consolidou como uma das maiores manifestações indígenas recentes no Brasil.
A desocupação foi marcada pela desmontagem do acampamento e por discursos que reforçaram o caráter político, espiritual e coletivo da mobilização. Segundo o cacique Gilson Tupinambá, o encerramento do ato representa o fortalecimento da luta indígena, sustentada pela ancestralidade e pela espiritualidade dos povos originários. “Hoje completamos 35 dias e estamos desmontando o acampamento. A nossa força ancestral, a força espiritual dos nossos encantados, mais uma vez prevaleceu”, declarou.

De acordo com a liderança, a ocupação não ocorreu de forma aleatória, mas foi motivada pela falta de diálogo e de compromisso do poder público com as pautas apresentadas. Gilson Tupinambá afirmou que a mobilização foi uma resposta direta às omissões do governo e que, uma vez concluído o processo de negociação, os povos indígenas retornam aos seus territórios.
Ao avaliar o período de ocupação, o cacique destacou uma série de falhas institucionais, incluindo a ausência do poder executivo municipal. Segundo ele, o prefeito de Santarém não esteve presente em nenhum momento junto aos manifestantes. Representantes do legislativo municipal compareceram de forma pontual, mas, conforme relatado, sem avanços concretos nas negociações.

Diante das dificuldades de diálogo em nível local, as lideranças indígenas afirmam que foi necessário levar as discussões até Brasília. Para Gilson Tupinambá, esse deslocamento evidenciou a falta de autonomia, de preparo técnico e de conhecimento da realidade regional por parte de representantes do governo.
“Nós sabemos por que ocupamos esse espaço. Não viemos aqui sem motivo. O governo deu o motivo e, se ele deu o motivo, nós viemos resolver aqui. Agora que resolvemos, retornamos para o nosso território. O governo mostrou que não tinha seriedade para discutir nossas pautas. Não tinha poder de decisão e nem conhecimento de causa do nosso rio. Quem tem que falar sobre o nosso rio somos nós”, enfatizou.
Durante o processo de negociação, segundo o cacique, os indígenas recorreram reiteradamente à legislação, citando artigos da Constituição, leis, resoluções e portarias para sustentar suas reivindicações. Nessas ocasiões, afirmou que representantes do governo recuaram por não apresentarem argumentos técnicos ou jurídicos consistentes, além de não demonstrarem domínio sobre questões relacionadas aos rios da região.
Para a liderança indígena, qualquer debate sobre o futuro dos rios amazônicos deve ter como protagonistas os próprios povos que vivem nesses territórios. Gilson Tupinambá reiterou que os rios e os territórios indígenas não estão à venda e criticou propostas que envolvem processos de privatização ou desestatização. “O nosso rio não está à venda. O nosso território não está à venda”, afirmou o cacique, ao alertar que, por trás de discursos técnicos, existem interesses de grandes grupos econômicos.

Na avaliação do líder indígena, esse tipo de projeto representa uma ameaça à soberania nacional e à autonomia dos povos originários. Ele reforçou que os indígenas não aceitam a lógica de exploração que transforma o território em mercadoria e defendeu o fortalecimento das políticas públicas e a efetivação da demarcação das terras indígenas como prioridades.
A desocupação da sede ocorreu de forma pacífica, sem registro de confrontos. Para Gilson Tupinambá, um dos principais legados da mobilização foi o envolvimento das crianças, jovens e futuras lideranças indígenas, que acompanharam de perto os dias de resistência. Segundo ele, a experiência fortaleceu politicamente as novas gerações, que saem mais preparadas para enfrentar desafios futuros e dar continuidade às lutas históricas dos povos indígenas.
Ao final do ato, o cacique reforçou que a saída do local não significa o fim da mobilização, mas sim uma etapa concluída dentro de um processo contínuo de resistência. “Acima do medo, ficam a força, a coragem e a resistência”, concluiu.
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