Entre cobranças e silêncios, saúde mental das mulheres segue em alerta na reta final do Janeiro Branco - Estado do Pará Online

Entre cobranças e silêncios, saúde mental das mulheres segue em alerta na reta final do Janeiro Branco

Especialistas alertam que a soma entre trabalho, cuidados domésticos, relações afetivas e pressão social segue adoecendo mulheres, muitas vezes de forma silenciosa e naturalizada.

Janeiro começa, o calendário vira, mas para muitas mulheres a sensação é de que o peso da rotina apenas muda de data. Trabalho, estudos, casa, filhos, relações afetivas e expectativas sociais seguem disputando espaço na cabeça e no corpo. Não por acaso, os dados mostram que elas são as mais afetadas por transtornos como ansiedade e depressão.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, mulheres apresentam índices mais elevados desses quadros em comparação aos homens, um cenário que especialistas relacionam diretamente à sobrecarga emocional e às desigualdades ainda presentes no dia a dia. O mês de janeiro, marcado pela campanha Janeiro Branco, acaba funcionando como um convite à reflexão sobre esse acúmulo invisível.

Para a psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da Wyden Belém, Melissa Fecury, o problema começa muito antes do esgotamento. “Existe uma construção cultural que ensina as mulheres a cuidarem de tudo ao redor, enquanto o cuidado consigo mesmas vai sendo adiado”, explica.

A chamada jornada dupla ou tripla é um dos fatores centrais desse desgaste. Entre o trabalho formal, as responsabilidades domésticas e as demandas emocionais, sinais de alerta costumam ser ignorados ou tratados como algo “normal”. Cansaço constante, alterações no sono, irritabilidade e ansiedade acabam virando parte da rotina.

Além disso, há um tipo de esforço que raramente aparece, mas pesa. É a carga mental ligada ao planejamento da casa, da família e dos relacionamentos. Mesmo sem tarefas visíveis, a mente segue ocupada, antecipando problemas e organizando soluções, o que pode levar ao esgotamento psicológico.

Outro obstáculo comum é a dificuldade de impor limites. Muitas mulheres se sentem culpadas ao dizer não ou ao buscar ajuda profissional. “Cuidar da saúde mental não é egoísmo. Dividir responsabilidades, estabelecer limites e procurar apoio psicológico são atitudes necessárias para manter o equilíbrio”, reforça a especialista.

Mais do que um discurso de início de ano, a discussão proposta pelo Janeiro Branco aponta para algo essencial: saúde mental não pode ser tratada como um detalhe. Respeitar o próprio ritmo, descansar e reconhecer quando é hora de pedir ajuda são passos fundamentais para atravessar o ano com mais qualidade de vida.

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