Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, enfrenta desde o início de janeiro um surto de Doença de Chagas associado à ingestão de açaí. O avanço dos casos, a confirmação de mortes e a intensificação das ações de fiscalização colocaram o município em alerta sanitário e mobilizaram autoridades de saúde estaduais e municipais.
Até a atualização mais recente da Prefeitura, divulgada nesta segunda-feira (19), 37 casos da doença foram confirmados e três óbitos registrados. As investigações seguem em andamento para identificar a origem da contaminação e interromper a cadeia de transmissão.
Segundo o médico infectologista Alessandre Guimarães, a transmissão pela via oral está diretamente relacionada a falhas no preparo do alimento.
“A transmissão da doença de Chagas pela via oral ocorre quando o inseto triatomíneo, conhecido como barbeiro, acaba sendo triturado junto com os caroços do açaí. O parasita Trypanosoma cruzi é veiculado junto com a polpa e, quando o produto não passa pelo processo adequado de branqueamento, ocorre a infecção”, explica.
Linha do tempo do surto
Novembro de 2025 – Consumo suspeito
De acordo com relatos de familiares, alguns pacientes que adoeceram teriam consumido açaí ainda no mês de novembro e outros no começo de dezembro, em pontos de venda da cidade, especialmente na região da Cidade Nova.
O infectologista alerta que esse intervalo entre o consumo e o aparecimento dos sintomas é compatível com a doença. “Após a ingestão do parasita pela via oral, o período de incubação pode variar de três a 22 dias, sendo comum que os primeiros sintomas surjam cerca de uma semana depois”, afirma.
Dezembro de 2025 – Primeiros sintomas
Consumidores passaram a relatar sintomas como febre prolongada, mal-estar intenso, dores no corpo, inchaço e falta de ar. Alguns procuraram atendimento médico, receberam medicação e foram liberados, sem diagnóstico confirmado naquele momento.
Para Alessandre Guimarães, esse é um ponto crítico no controle do surto. “Todo paciente que chega ao serviço de saúde com febre inespecífica, dor no corpo, fraqueza e gânglios não pode ter esses sintomas relativizados ou tratados apenas como virose”, destaca.
4 de janeiro de 2026 – Primeira morte sob investigação
Ronald Maia, de 26 anos, morreu após apresentar complicações compatíveis com Doença de Chagas. Segundo a família, ele teria consumido açaí adquirido em um ponto de venda próximo à empresa onde trabalhava, o local se chama “Açaí do carequinha”, localizado no bairro do coqueiro e foi interditado dias depois.
O caso passou a ser tratado como morte suspeita mas dias depois o laudo confirmou a contaminação por doença de chagas.

O médico ressalta que a forma oral pode evoluir rapidamente para quadros graves. “Estamos observando casos da fase aguda com evolução muito mais grave do que o habitual, inclusive com óbitos, o que tem chamado a atenção”, afirma.
5 e 6 de janeiro – Interdições preventivas e início das apurações
Após denúncias, a Vigilância Sanitária iniciou fiscalizações e interditou preventivamente pontos de venda de açaí em Ananindeua, especialmente no Conjunto Cidade Nova 6. Amostras do produto foram coletadas para análise e casos passaram a ser monitorados.
7 de janeiro – Prefeitura confirma novos casos
A Secretaria Municipal de Saúde confirmou 10 casos de Doença de Chagas, além de oito em investigação, e reconheceu oficialmente o primeiro óbito. As autoridades reforçaram o acompanhamento clínico dos pacientes e as ações sanitárias.
Segundo o infectologista, a subnotificação é um desafio.
“No mundo inteiro, apenas cerca de 10% dos casos de doença de Chagas são diagnosticados. É uma doença silenciosa e, muitas vezes, silenciada”, alerta.
8 de janeiro – Fiscalizações são intensificadas
A Prefeitura ampliou as ações de fiscalização em pontos de venda de açaí, avaliando condições de higiene, armazenamento, manipulação do alimento e regularidade dos estabelecimentos. Comerciantes receberam orientações sobre boas práticas sanitárias.
Alessandre Guimarães reforça que existem protocolos claros. “O fruto precisa passar por peneiragem, sanitização em água clorada e, obrigatoriamente, pelo processo de branqueamento, com aquecimento entre 80 e 90 graus, que é o que elimina o parasita”, explica.
12 de janeiro – Segunda morte
Cíntia Oliveira Machado, de 50 anos, morreu na UPA da Cidade Nova. Segundo familiares, ela havia consumido açaí no dia 20 de novembro em um estabelecimento onde costumava comprar o produto.


O pai dela, Carlos da Silva Machado, de 73 anos, também apresentou sintomas graves e segue internado.
O especialista alerta para os riscos da evolução tardia da doença. “Mesmo quando os sintomas iniciais desaparecem, o paciente pode evoluir para a forma crônica, que pode se manifestar décadas depois, com comprometimento do coração, do esôfago ou do intestino”, explica.
19 de janeiro – Atualização oficial aponta 37 casos e três mortes
A Prefeitura de Ananindeua confirmou 37 casos de Doença de Chagas e três óbitos. O município informou que todos os protocolos do Ministério da Saúde estão sendo adotados, desde a identificação até o tratamento dos pacientes. Ainda não foi divulgado a identidade da terceira vítima fatal da doença.
Investigação e medidas de controle
A Secretaria Municipal de Saúde informou que segue monitorando a situação epidemiológica e intensificou as ações de fiscalização e orientação, com atuação conjunta da Vigilância Sanitária, Vigilância Ambiental, Casa do Açaí, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Polícia Municipal.
Para o infectologista, medidas mais amplas também são necessárias. “O surto já está acontecendo. É fundamental uma orientação técnica clara às unidades de saúde, com definição de caso suspeito e encaminhamento imediato para exames como a gota espessa”, defende.
Risco da transmissão oral
Na região amazônica, a Doença de Chagas tem como principal forma de transmissão a via oral, especialmente pelo consumo de alimentos contaminados, como o açaí, quando não são seguidos corretamente os protocolos sanitários durante a colheita e o processamento.
“A transmissão oral ocorre exatamente por falha no preparo e no manuseio do fruto, quando ele não passa pelo processo adequado de sanitização e branqueamento”, reforça Alessandre Guimarães.
Sintomas e orientação à população
Os principais sintomas iniciais da doença incluem:
- Febre prolongada
- Cansaço intenso e mal-estar
- Dores no corpo e dor de cabeça
- Inchaço no rosto, pernas ou pálpebras
- Falta de ar, náuseas e dor abdominal
A orientação da Secretaria de Saúde é que a população procure imediatamente uma Unidade Básica de Saúde ou Clínica Saúde da Família ao apresentar sintomas persistentes e adquira açaí apenas em estabelecimentos regularizados.
Situação segue sob monitoramento
As autoridades reforçam que novas atualizações poderão ser divulgadas conforme o avanço das investigações laboratoriais e epidemiológicas. O surto acende um alerta sobre a importância da vigilância sanitária, do diagnóstico precoce e do consumo seguro de alimentos na Região Metropolitana de Belém.











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