Banda MIRITI apresenta o punk da Amazônia com lançamento do EP “P.T.U.” - Estado do Pará Online

Banda MIRITI apresenta o punk da Amazônia com lançamento do EP “P.T.U.”

Trabalho de estreia do power trio mistura punk rock e ritmos amazônicos a partir da vivência urbana de Belém

O EP “P.T.U.”, primeiro trabalho autoral da banda MIRITI, foi lançado recentemente e marca a consolidação da proposta sonora do power trio formado em 2024 por Augusto Pantoja, Bernardo dos Anjos e Carlos Hernandes. O projeto se destaca pela fusão entre punk rock e ritmos tradicionais da Amazônia, como carimbó, brega e tecnobrega, resultando em uma identidade musical definida pelo grupo como “punk da Amazônia”.

Identidade amazônica e o duplo sentido de “P.T.U.”

O lançamento do EP funciona como um manifesto estético e sonoro. Ao dialogar com referências globais, como punk, hardcore, funk e trap, a MIRITI filtra essas influências a partir de elementos culturais locais, criando uma sonoridade diretamente ligada à vivência urbana de Belém.

A banda explica que essa construção surge da diversidade de referências entre os integrantes e da recusa em se limitar ao rock tradicional.

“A banda é formada por músicos bem ecléticos, então acaba sendo natural que cada um traga influências de outros estilos. Além disso, nossa proposta é fugir do rock convencional. Não queremos ser taxados como aquela banda que prefere se fechar pra qualquer coisa que não tenha gutural e guitarra distorcida. Nós vamos para festas de aparelhagem, funk, roda de carimbó, eletrônica, reggae, tudo num só fim de semana, então isso reflete muito no nosso som e também buscamos um público que esteja mais aberto a um som mais experimental “, destaca o grupo.

O título do EP também carrega um significado simbólico. “P.T.U.” pode ser lido como “pitiú”, gíria paraense associada a um cheiro forte e marcante, e também como a sigla de “Presenciando a Transformação Urbana”. A escolha sintetiza o olhar da banda sobre as transformações sociais, culturais e sensoriais da capital paraense.

Um roteiro sensorial pela cidade de Belém

Ao longo das faixas, o EP se estrutura como um percurso sensorial por Belém, abordando temas como política, juventude, vida noturna, sentimentos urbanos e pertencimento cultural. Letras e arranjos constroem um mosaico de experiências que atravessam festas populares, protestos, arrependimentos e celebrações cotidianas.

Para a MIRITI, a cidade assume papel central na narrativa do disco.

“A cidade de Belém acaba assumindo um protagonismo no EP. Tudo gira em torno dela, do início ao fim. Seja nos versos em que é citada ou na atmosfera urbana que queríamos trazer no nosso som. Belém é nossa cidade, rica e cheia de história. Usamos das nossas vivências por aqui pra servir de inspiração nas composições. Falar do cotidiano, mas também propor uma reflexão sobre o modo como as coisas têm se desenvolvido por aqui, seja cultural, social ou economicamente” afirmam 

Crítica política e reflexões urbanas na faixa “SAL”

A música “SAL”, que abre o EP, concentra o tom mais provocativo do trabalho. A faixa aborda questões políticas e apresenta uma crítica direta à realização da COP-30 em Belém, levantando questionamentos sobre os impactos reais desses grandes eventos para a cidade.

“Definitivamente a faixa mais provocativa, por isso escolhemos ela pra servir como abertura do disco. Queríamos desabafar um pouco. Tantas obras, tantas propagandas e tudo sendo vendido como avanço. Mas no fim, os problemas reais que assolam nossa cidade continuam da mesma maneira ou até pior. Então queríamos propor essa reflexão: no fim, o que realmente muda? Uma cidade revitalizada é o suficiente? Pra quem vai sobrar a bagunça que fica?”, apontam.

A proposta é provocar o ouvinte a refletir sobre quem se beneficia das transformações urbanas e quais problemas permanecem ou se agravam após esses processos.

Reconhecimento audiovisual com o clipe “BOIÚNA”

Além do aspecto sonoro, o projeto também se destaca no campo audiovisual. O single “BOIÚNA” teve seu videoclipe reconhecido ao vencer o prêmio de Melhor Clipe Paraense no Circuito Caeté, após indicações em festivais universitários. A conquista ocorre em um momento simbólico, que coincide com o lançamento do primeiro EP autoral da banda.

“Foi nossa primeira experiência, e mesmo assim, o Coletivo Cósmico e a Manda Job abraçaram demais esse projeto. Apesar de ter sido em um curto prazo, tudo fluiu muito bem, feito com muito carinho por uma equipe muito profissional. Então ver que nosso trabalho está sendo reconhecido e premiado por isso é gratificante e nos incentiva a fazer isso mais vezes”, destaca a banda.

Diálogo com a tradição da música paraense

O EP também estabelece um diálogo direto com a cultura popular amazônica ao incluir um cover hardcore de “No Meio do Pitiú”, carimbó eternizado na voz de Dona Onete. A releitura transporta a canção para o universo do punk rock sem romper com suas raízes, reforçando a ponte entre tradição e linguagem contemporânea.

“Queríamos prestar essa homenagem, afinal, foi graças ao vídeo viral de 2024 que nossa história começou. Nós tocávamos essa versão desde os nossos primeiros ensaios e era o ápice quando rolava nos shows. Era muito divertido fazer essa mistura de carimbó com hardcore/punk, e simplesmente casava. Já naquela época, muita gente pedia pra que a gente lançasse oficialmente, então acatamos. Demorou, mas veio” finalizam.

Com “P.T.U.”, a MIRITI apresenta um trabalho que articula território, identidade amazônica e música alternativa, consolidando-se como um dos nomes emergentes da cena independente paraense, ao traduzir em som as múltiplas camadas da experiência urbana em Belém.

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