Meio Ambiente

Eucalipto chinês no Pará: expansão da celulose preocupa produtores e ambientalistas

Interesse da Nine Dragons Paper em instalar uma fábrica no estado coloca em discussão o modelo de expansão do eucalipto e o futuro de áreas degradadas no Nordeste paraense

Por Elielson Almeida
13/09/2026 às 11:37 • 6 min

Interesse de gigante chinesa em produzir celulose no estado abre discussão sobre expansão do eucalipto e uso de áreas degradadas (Foto: reprodução)

A possibilidade de uma gigante chinesa da indústria de papel e celulose instalar uma fábrica no Pará já provoca preocupação entre produtores e organizações socioambientais que temem uma nova pressão sobre terras e áreas de floresta no estado. A Nine Dragons Paper demonstrou interesse em produzir no Pará, abrindo uma discussão sobre como será formada a base de eucalipto necessária para abastecer uma eventual unidade industrial.

Em abril de 2023, o governador Helder Barbalho se reuniu, em Pequim, com Ming Chung Liu, CEO da Nine Dragons Paper. Na ocasião, segundo o governador, o executivo manifestou interesse em abrir uma fábrica no Pará, com a promessa de geração de empregos e movimentação da economia estadual.

A Nine Dragons tem escala para transformar esse movimento em um empreendimento de grandes proporções. O grupo ultrapassou, em 2025, a marca de 23 milhões de toneladas de capacidade anual de produção de papel e mais de 5 milhões de toneladas de celulose. A empresa possui operações na China e no Vietnã e emprega cerca de 38 mil pessoas.

Por que o Pará entrou no radar

O interesse chinês está relacionado à própria dinâmica do mercado mundial de celulose. A China é um dos principais consumidores do produto e utiliza grandes volumes de fibra curta, produzida a partir do eucalipto.

A Nine Dragons precisaria estruturar uma cadeia de fornecimento no Pará caso avance com uma unidade industrial no estado. É justamente nesse ponto que produtores rurais e organizações socioambientais da região começam a discutir quais condições deveriam acompanhar uma eventual expansão do eucalipto. O temor entre produtores familiares é que a chegada de grandes investimentos reproduza modelos de concentração de terras já observados no Nordeste paraense.

A região possui um histórico de grandes projetos florestais. Entre as décadas de 1970 e 1980, o empresário Ludwig implantou um projeto de cultivo de eucalipto e produção de celulose no Pará que envolveu a derrubada de grandes áreas de floresta. Décadas depois, a expansão de outras monoculturas, como o dendê, também passou a ser relacionada por estudos à concentração fundiária e à mudança no uso da terra.

Produtores defendem floresta mista

Como alternativa à monocultura de eucalipto, produtores familiares e cooperativas do Nordeste paraense articulam uma proposta baseada em florestas mistas, com o cultivo do eucalipto associado a espécies nativas.

A ideia é utilizar áreas que já foram alteradas, principalmente pastagens degradadas, evitando que novas plantações avancem sobre áreas de floresta nativa. O modelo também busca manter os agricultores na terra e criar outras fontes de renda a partir da recuperação ambiental.

Pesquisas desenvolvidas pela Embrapa já testaram sistemas que combinam eucalipto com espécies nativas. Em experimentos realizados na transição entre Cerrado e Amazônia, foram avaliados consórcios com 16 espécies regionais. Os estudos analisam o desenvolvimento das árvores e a possibilidade de utilizar o eucalipto como espécie pioneira, criando condições de sombra e microclima para o estabelecimento de espécies nativas.

A proposta também é estudada por pesquisadores da Esalq/USP, que avaliam como diferentes níveis de diversidade de árvores podem influenciar a resiliência dos sistemas florestais diante das mudanças climáticas e a eficiência no uso da água.

Um dos argumentos utilizados pelos defensores do modelo é a existência de milhões de hectares de áreas degradadas no Pará que poderiam ser recuperadas sem necessidade de abertura de novas áreas de floresta. O material-base aponta cerca de 6,6 milhões de hectares de pastagens degradadas no estado, distribuídos em aproximadamente 276,7 mil registros no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Desse total, cerca de 2,7 milhões de hectares estariam em propriedades de menor porte.

A proposta apresentada por produtores, pesquisadores e organizações ligadas ao projeto é direcionar parte dessas áreas para sistemas florestais capazes de combinar produção econômica e recuperação ambiental.

Nesse desenho, o eucalipto seria utilizado como uma espécie comercial de crescimento rápido, enquanto árvores nativas participariam da composição da floresta. A intenção é criar uma paisagem diferente da monocultura tradicional, com maior diversidade e possibilidade de formação de corredores ecológicos.

A preocupação com a concentração de terras

A discussão sobre o futuro do eucalipto no Pará também passa pela experiência de expansão do agronegócio no Nordeste paraense. Estudos sobre a expansão do dendê na região apontam processos de concentração de propriedades e mudanças no uso da terra. O receio manifestado pelos produtores é que um novo ciclo de investimentos reproduza esse modelo, principalmente caso grandes empresas passem a adquirir ou concentrar áreas destinadas ao fornecimento de matéria-prima.

Por isso, a proposta da ARPA tenta separar produção florestal de concentração fundiária. A ideia é que a empresa interessada na compra da matéria-prima possa estabelecer contratos com produtores locais, enquanto as propriedades permanecem sob controle das famílias que já vivem e produzem nelas.

Nesse modelo, a chegada do capital externo não seria necessariamente acompanhada pela transferência da propriedade da terra.

O que está em jogo

A possível chegada da Nine Dragons ao Pará coloca o estado diante de uma escolha sobre o modelo de expansão da cadeia de celulose.

Uma alternativa é repetir o padrão de grandes áreas de monocultura vinculadas a grandes propriedades e fornecedores concentrados. Outra é utilizar a expansão industrial como oportunidade para recuperar áreas já degradadas, diversificar a paisagem e manter agricultores familiares como parte da cadeia.

A proposta da ARPA tenta avançar nesse segundo caminho, com eucalipto associado a espécies nativas, recuperação de áreas alteradas e contratos com produtores locais.

O desafio será transformar o modelo em escala sem permitir que a demanda por madeira provoque uma nova corrida por terras.

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