Internacional

Cerca de 20 milhões de crianças sofreram abuso sexual facilitado pela tecnologia em 21 países

O número de crianças expostas a conteúdo sexual indesejado é estimado em 15 milhões

Por Sarah Carvalho
07/09/2026 às 08:00 • 4 min

Reprodução Freepik

Cerca de 20 milhões de crianças e adolescentes de 21 países sofreram, ao longo de um ano, algum tipo de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia. Os dados fazem parte de um relatório divulgado nesta semana pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O estudo Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil aponta ainda que aproximadamente 9 milhões de crianças e adolescentes foram induzidos a manter conversas de teor sexual ou compartilhar imagens desse tipo contra a própria vontade. Outros 4 milhões tiveram imagens pessoais vazadas. O número de crianças expostas a conteúdo sexual indesejado é estimado em 15 milhões.

Segundo os especialistas do Unicef, os números podem ser ainda maiores, já que muitas vítimas não relatam o que aconteceu. Mais de 40% das ocorrências identificadas durante a coleta de dados não haviam sido comunicadas pelas próprias vítimas. O principal motivo apontado foi não saber onde ou para quem pedir ajuda.

Redes sociais concentram maior parte dos casos

De acordo com o levantamento, cerca de 60% dos casos ocorreram em plataformas como Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp.

Os jogos online apareceram em aproximadamente 14% das ocorrências. O relatório alerta que esses ambientes podem facilitar situações de abuso porque a interação entre jogadores pode ser utilizada para estabelecer relações de confiança e, posteriormente, explorar as vítimas.

Outro dado chama atenção: 57% dos casos relatados envolviam alguém que já fazia parte do convívio da criança ou do adolescente, como familiares, conhecidos, amigos ou parceiros. O resultado contraria a percepção de que esse tipo de violência é praticado principalmente por desconhecidos.

Ao mesmo tempo, 38% das vítimas disseram ter conhecido os agressores pela primeira vez na internet. Segundo o Unicef, perfis falsos e mensagens privadas podem facilitar a aproximação e as violações.

“Essas experiências causam profundo desgaste emocional e mental. Muitas crianças sofrem em silêncio, sem saber ao certo onde procurar ajuda. Nós não podemos ignorar isso”, afirmou Catherine Russell, diretora-executiva do Unicef.

Coerção e chantagem

O relatório foi elaborado a partir de entrevistas com 21 mil crianças e adolescentes entre 12 e 17 anos, de 21 países, realizadas entre 2020 e 2025.

Os relatos mostram diferentes estratégias utilizadas pelos agressores para conseguir imagens ou interações de teor sexual. Além de oferecer presentes, dinheiro e atenção, alguns recorrem à pressão psicológica, chantagem e ameaças.

Uma adolescente brasileira contou aos pesquisadores que foi ameaçada pelo agressor, que afirmou que enviaria à mãe dela mensagens anteriores trocadas entre os dois caso ela não mandasse outra fotografia.

Outra entrevistada relatou ter passado anos procurando na internet para verificar se imagens suas, inclusive montagens, estavam sendo compartilhadas sem autorização.

Brasil

No Brasil, 19% dos entrevistados relataram ter sido afetados por esse tipo de violência, o equivalente a quase 3 milhões de crianças e adolescentes. Apesar da dimensão do problema, menos de 1% dos casos teria sido denunciado, segundo o levantamento.

A internet foi apontada como o ambiente em que ocorreram 55,5% dos casos brasileiros, enquanto a escola apareceu em 24,5%.

Entre os canais digitais considerados mais associados às ocorrências estão os aplicativos de mensagens e as redes sociais, com 66,5% dos registros. O Instagram aparece em 57,2% dos casos e o WhatsApp em 52,1%.

Os jogos online foram citados em 12,3% das ocorrências no país.

Os dados reforçam a necessidade de ampliar mecanismos de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, além de facilitar o acesso das vítimas a canais seguros de denúncia e atendimento.

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