Meio Ambiente

Calor extremo já afeta trabalhadores na Amazônia; TRT-8 aponta risco de acidentes

Entregadores, trabalhadores da construção civil e da coleta de resíduos estão entre os mais expostos às altas temperaturas

Por Elielson Almeida
31/08/2026 às 10:29 • 5 min

Atividades a céu aberto e serviços realizados no horário de maior temperatura estão entre as situações de maior risco. (Foto: divulgação)

As altas temperaturas já estão mudando a rotina de trabalhadores na Amazônia e aumentando a preocupação com a segurança durante o expediente. Atividades realizadas a céu aberto ou nos horários de maior calor podem elevar o risco de desidratação, estafa térmica e acidentes. O tema já chegou à Justiça do Trabalho da 8ª Região, que reúne Pará e Amapá, e aparece em processos trabalhistas analisados pelo tribunal.

O assunto também é acompanhado pelo Programa Trabalho Seguro do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8). Segundo o gestor regional do programa, desembargador Paulo Isan Coimbra Júnior, os eventos climáticos extremos estão ocorrendo com maior frequência e intensidade. Para ele, a situação reforça a necessidade de adaptar os ambientes de trabalho às novas condições climáticas.

O primeiro ponto a destacar é que todas as previsões científicas estão se confirmando, visto que, nos últimos anos, eventos climáticos extremos acontecem de maneira mais recorrente, com mais intensidade. O desembargador destaca que os eventos climáticos “estão mais destrutivos e o super El Niño, assim chamado, é uma prova disso porque ele é um evento esperado, que ocorre sempre e tá acontecendo em ciclos cada vez mais curtos e com cada vez mais força”, observa o desembargador.

Entre os trabalhadores mais expostos estão aqueles que precisam permanecer nas ruas durante os períodos de maior calor. É o caso de profissionais da construção civil, coleta de resíduos e, principalmente, entregadores que trabalham por aplicativos. A situação é ainda mais preocupante para ciclistas, que realizam esforço físico intenso justamente em horários de temperaturas elevadas.

Segundo o desembargador, trabalhadores de aplicativos acabam ficando mais vulneráveis porque a própria demanda por entregas se concentra no horário de almoço, quando o calor costuma ser mais intenso. Entre as medidas de proteção citadas pelo TRT-8 estão hidratação constante, roupas adequadas, equipamentos de proteção e, sempre que possível, evitar atividades externas nos horários de maior temperatura.

“E este ano, nesse exato momento em que falamos, os efeitos do El Niño já estão sendo sentidos aqui na Amazônia. As temperaturas estão muito acima da média histórica e isso exige várias precauções. Nós temos que adotar de maneira muito firme o módulo da adaptação climática. Cada posto de trabalho vai ter suas características, cada função vai ter sua característica, cada empresa tem sua característica. Mas o fato é que todos, absolutamente todos, estamos sendo impactados por esse aumento das temperaturas. Lógico, que a primeira coisa que vem à mente é hidratação ”, detalha Paulo Isan Coimbra Júnior.

A exposição prolongada ao calor também pode afetar a capacidade de reação do trabalhador. Conforme o TRT-8, a desidratação e a estafa térmica podem provocar tontura, perda de agilidade e maior dificuldade para antecipar movimentos, aumentando o risco de acidentes. No trânsito, o problema pode ser ainda maior para quem trabalha sobre motos ou bicicletas.

O tribunal também chama atenção para uma consequência social do problema. Muitos trabalhadores de aplicativos não possuem a mesma proteção previdenciária de outras categorias e podem ficar sem renda caso adoeçam em decorrência das condições de trabalho. A combinação entre calor extremo, exposição nas ruas e ausência de proteção amplia a vulnerabilidade desses profissionais.

Adaptação também depende das cidades

Para o TRT-8, a adaptação às altas temperaturas não deve ficar restrita aos trabalhadores ou às empresas. O planejamento das próprias cidades também precisa considerar o aumento do calor. Entre as medidas apontadas estão a ampliação da arborização, a preservação de áreas verdes, o acesso à água e à energia elétrica e a reorganização de atividades para evitar os períodos mais quentes do dia.

Em Belém, o desembargador Paulo Isan Coimbra Júnior destaca a necessidade de ampliar a arborização urbana. Segundo ele, a redução de áreas verdes e a pouca reposição de árvores contribuem para tornar a cidade ainda mais vulnerável às altas temperaturas.

A orientação do programa é que empresas avaliem as características de cada atividade e adotem medidas de adaptação de acordo com os riscos enfrentados pelos trabalhadores. Para o TRT-8, a prevenção precisa acompanhar as mudanças provocadas pelo aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos.

O Programa Trabalho Seguro do TRT-8 atua justamente na prevenção de riscos relacionados ao trabalho e na promoção de uma cultura de proteção à saúde dos trabalhadores. O tema das mudanças climáticas passou a integrar esse debate diante dos impactos que as temperaturas extremas já provocam nas atividades profissionais.

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