Política

Nova revelação de negociação entre Flávio Bolsonaro e Banco Master amplia contradições e geram crise na direita

Escritório do senador recebeu R$ 500 mil de empresa ligada ao diretor de uma consultoria abastecida pelo Banco Master. Meses antes, Flávio chamou de “mentira” a informação de que mantinha relação com Daniel Vorcaro, que está preso na Papudinha, situado no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF).

Por Estado do Pará Online
23/07/2026 às 14:36 • 8 min
Montagem com as fotos de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Flávio Bolsonaro mudou sua versão sobre a relação com Daniel Vorcaro após a divulgação de áudios e documentos. Foto: reprodução

A revelação de que o escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recebeu R$ 500 mil de uma empresa ligada ao mesmo executivo que dirige uma consultoria abastecida pelo Banco Master acrescentou um novo capítulo às sucessivas mudanças de versão do pré-candidato à Presidência sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso preso na Papudinha, situado no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF).

Segundo documentos divulgados pelo Metrópoles e confirmados pela Folha de S.Paulo, o escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia emitiu, em 9 de abril de 2025, uma nota fiscal de R$ 500 mil para a Contábil Correa Contabilidade e Auditoria, também conhecida como BR Global.

O documento registra a prestação de serviços de assessoria jurídica e não apresenta indicação de cancelamento. Flávio confirmou que realizou o trabalho e classificou a contratação como “completamente legal e privada”, mas não detalhou publicamente quais serviços foram prestados.

Dois dias antes, a banca havia emitido outras duas notas fiscais, de R$ 500 mil cada, para a Copenhagen Consultoria e Assessoria. As notas, que somavam R$ 1 milhão, acabaram canceladas.

A Contábil Correa pertence ao contador Rogério Lourenço Novo, que também aparece como diretor da Copenhagen. Criada em novembro de 2024 com capital inicial de apenas R$ 40, a consultoria recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, de acordo com documentos da Receita Federal encaminhados à CPI do Crime Organizado.

Flávio sustenta que não aceitou trabalhar para a Copenhagen e que nenhum valor foi movimentado entre seu escritório e a consultoria. Sobre a Contábil Correa, o senador afirma que prestou serviços jurídicos regularmente.

De “nunca tive contato” a negociações de R$ 134 milhões

O problema político para Flávio não se limita às notas fiscais. Ele está principalmente na distância entre o que o senador dizia publicamente e o que passou a reconhecer depois da divulgação de documentos, mensagens e áudios.

Em março de 2026, quando seu número apareceu na agenda extraída do celular de Daniel Vorcaro, Flávio afirmou que nunca havia mantido contato com o banqueiro. Diante do registro, respondeu apenas: “O número do meu telefone não é propriamente um segredo”, conforme noticiado pelo iG.

A negativa foi repetida em 13 de maio. Naquela manhã, questionado por jornalistas do Intercept Brasil sobre o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, Flávio respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. O senador riu e encerrou a entrevista.

Horas depois, o Intercept Brasil publicou mensagens, documentos e áudios indicando que Flávio havia negociado diretamente com Vorcaro um investimento de US$ 24 milhões – aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época – para a produção do filme.

Os documentos indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025. Os recursos teriam sido enviados para um fundo nos Estados Unidos ligado à produção cinematográfica.

Em uma das mensagens, Flávio tratou Vorcaro como “irmão” e afirmou que estaria ao lado dele “sempre”. Em outras comunicações, cobrou parcelas atrasadas, alertou para o risco de paralisação das filmagens e pediu que o banqueiro desse uma posição sobre os pagamentos.

Depois da publicação, Flávio mudou sua versão. Admitiu que conhecia Vorcaro desde dezembro de 2024 e que havia mantido contato com ele durante quase um ano. Alegou que não revelou anteriormente a relação por causa de uma cláusula de confidencialidade ligada ao contrato do filme.

O senador também pediu desculpas por ter negado o vínculo.

Encontro privado também foi admitido posteriormente

Em sua primeira reação ao vazamento dos áudios, Flávio afirmou que não havia recebido dinheiro pessoalmente, não oferecera vantagens ao banqueiro e não tivera encontros privados com Vorcaro.

Dias depois, porém, confirmou que esteve na residência do empresário em São Paulo depois da primeira prisão do dono do Master, em novembro de 2025. Vorcaro já utilizava tornozeleira eletrônica quando recebeu a visita.

“Fui lá para colocar um ponto final nessa história”, justificou o senador, segundo a CNN Brasil.

A admissão contradisse diretamente a declaração anterior de que não haviam ocorrido encontros privados. Flávio alegou que procurou o banqueiro para encerrar as negociações e reclamar que não havia sido informado sobre a gravidade da situação financeira do Master.

A explicação também levantou questionamentos porque, antes da visita, Flávio havia enviado mensagens cobrando o restante do dinheiro necessário para o filme. Posteriormente, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que o senador foi à casa de Vorcaro para tentar obter os recursos que ainda faltavam.

Contratos prometidos ainda não foram divulgados

Outra promessa não cumprida envolve a abertura das contas de Dark Horse.

Em 15 de maio, Flávio declarou estar “100% disposto” a tornar públicos os contratos de investimento. Quatro dias depois, afirmou a jornalistas que havia solicitado à produtora e ao fundo responsável pelos recursos uma prestação de contas completa em até 30 dias.

O prazo terminou em junho. Em 10 de julho, porém, nem o senador nem a produtora haviam divulgado os documentos, segundo levantamento do UOL.

A ausência da prestação de contas mantém sem resposta perguntas sobre o destino dos R$ 61 milhões, os termos da participação de Vorcaro e o motivo de um projeto cinematográfico ter recebido uma previsão de investimento de R$ 134 milhões.

Novo documento pressiona versão sobre relação “exclusiva” com o filme

No início de julho, Flávio voltou a declarar que sua única relação com Daniel Vorcaro envolvia a produção de Dark Horse. As notas fiscais reveladas agora não provam que o dinheiro recebido da Contábil Correa tenha se originado no Banco Master.

Também não demonstram, isoladamente, a prática de qualquer ilegalidade pelo senador.

Os documentos, entretanto, revelam uma relação financeira do escritório de Flávio com uma empresa cujo proprietário dirige uma consultoria que recebeu R$ 57,9 milhões do Master. Mostram ainda que o escritório chegou a emitir R$ 1 milhão em notas diretamente para a Copenhagen, embora os documentos tenham sido cancelados.

O próprio Flávio afirmou que jamais soube de vínculos entre as empresas e o Banco Master. Rogério Lourenço Novo disse ao Metrópoles que o escritório do senador teria sido contratado para atender clientes da Contábil Correa em um modelo de “quarteirização” de serviços jurídicos.

Permanecem sem esclarecimento público a natureza dos trabalhos que justificaram o pagamento de R$ 500 mil, quais clientes foram atendidos, por quanto tempo os serviços foram prestados e por que duas notas de igual valor foram inicialmente emitidas para a Copenhagen.

Desgaste vira munição na disputa da direita

As contradições passaram a ser exploradas pelos adversários de Flávio na corrida presidencial. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), que disputa com o senador o eleitorado conservador, intensificou os ataques nas últimas semanas.

“O barco está afundando e os aliados já começaram a pular fora”, escreveu Caiado ao comentar as dificuldades de Flávio para formar alianças. O goiano também afirmou que “liderança não se herda” e criticou a dependência política do senador em relação ao pai.

Caiado voltou a confrontar a família Bolsonaro após a concessão de um green card pelo governo dos Estados Unidos ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O episódio ampliou a troca de acusações dentro da direita às vésperas da oficialização das candidaturas presidenciais.

Para Flávio, as reportagens fazem parte de uma ofensiva eleitoral destinada a vinculá-lo indevidamente ao Banco Master. Para seus adversários, a sequência de negativas, admissões posteriores, encontros inicialmente omitidos e promessas de transparência ainda não cumpridas expõe um problema de credibilidade que vai além da legalidade formal dos contratos.

Até o momento, não foi apresentada prova de que os R$ 500 mil pagos pela Contábil Correa tenham saído do Banco Master ou de Daniel Vorcaro. O que está documentado é que, sempre que novas informações surgiram, a versão pública apresentada por Flávio precisou ser ampliada ou corrigida.

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