O atacante Vinícius Júnior voltou ao centro de debates sobre racismo nas redes sociais após a repercussão de uma publicação feita pela influenciadora Virginia Fonseca nesta terça-feira (19), durante uma viagem a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Os dois viveram um relacionamento nos últimos meses e anunciaram recentemente o término. Enquanto o jogador seguia compromissos ligados à Seleção Brasileira, Virginia embarcou para Dubai ao lado de amigas, compartilhando registros da viagem nas redes sociais.
A polêmica começou após a influenciadora publicar um vídeo em um zoológico local, onde aparece beijando um macaco. Na postagem, Virginia fala em tom descontraído: “Que pegada foi essa?”. O conteúdo rapidamente se espalhou por páginas de entretenimento e perfis de fofoca, gerando milhares de comentários.
Em meio às publicações, alguns internautas passaram a fazer insinuações e mensagens com teor preconceituoso utilizando humor e ironia para mascarar ataques racistas. Comentários como “Eles não tinham terminado?” e “Já voltou?” passaram a circular nas redes sociais ao lado de insinuações associando o jogador ao animal mostrado nas imagens.
O que é racismo recreativo?
O chamado racismo recreativo é uma expressão utilizada para definir situações em que manifestações racistas aparecem mascaradas de humor. Nesse tipo de comportamento, comentários ofensivos costumam ser tratados como brincadeiras aparentemente inofensivas, o que contribui para a naturalização da violência racial no ambiente digital.
Em entrevista ao Estado do Pará Online (EPOL), a mestra em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Thamyres Costa, que pesquisa feminismo, afetos e questões raciais dentro da comunicação, explicou que o humor tem sido utilizado como ferramenta para normalizar comportamentos discriminatórios nas plataformas digitais.
“O racismo recreativo vem para reforçar o racismo estrutural que está enraizado na nossa sociedade. Como o humor é utilizado para alcançar novos públicos, muitas pessoas acabam não percebendo a gravidade do conteúdo compartilhado. O que poderia ser identificado como ofensa ou preconceito passa despercebido”, afirmou.
Especialista analisa repercussão do caso
Para Thamyres Costa, os comentários envolvendo o jogador não surgiram de forma isolada, mas refletem preconceitos já presentes na sociedade e frequentemente reproduzidos no ambiente digital. “Esses comentários não são coincidência. Mesmo durante o relacionamento, Vini Jr. já era alvo de críticas carregadas de preconceito sobre sua aparência e suas escolhas. O término e o vídeo publicado por Virginia não criaram ódio, apenas expuseram algo que já estava presente”, destacou.
A pesquisadora também avalia que existe relação entre a forma como determinados conteúdos são publicados e a reação de parte do público nas redes sociais.
“Quando páginas e perfis publicam conteúdos ambíguos, irônicos ou provocativos envolvendo pessoas negras, elas não estão apenas informando, estão reforçando uma narrativa. As publicações politicamente incorretas funcionam como um convite implícito para que a audiência complete o raciocínio com seus próprios preconceitos”, explicou.
Redes sociais, engajamento e responsabilidade digital
A repercussão do vídeo também levantou questionamentos sobre a responsabilidade de páginas de entretenimento e perfis de fofoca que compartilharam o conteúdo.
“Quanto mais engajamento o conteúdo gera, mais ele é distribuído. Essas páginas vivem disso. Então, mesmo quando não há uma intenção explicitamente racista, a escolha editorial de explorar esse tipo de situação alimenta um ciclo onde o racismo dos usuários se torna combustível para o alcance da publicação”, afirmou a especialista ao Epol.
Histórico de ataques contra Vini Jr.
Os ataques sofridos por Vinícius Júnior não são recentes. O jogador se tornou um dos principais símbolos da luta antirracista no futebol internacional após denunciar episódios recorrentes de preconceito durante partidas na Europa.
Segundo reportagem publicada pela BBC News em fevereiro de 2026, o atacante já relatou mais de 20 episódios de racismo desde que chegou ao Real Madrid, em 2018. Entre os episódios mais marcantes está o caso ocorrido em dezembro de 2022, durante uma partida entre Real Valladolid e Real Madrid. Na ocasião, Vini Jr. foi alvo de gritos de “negro de merda” e sons de macaco enquanto deixava o campo após ser substituído.
Em 2025, cinco torcedores do Valladolid foram condenados pelo Ministério Público da Espanha a um ano de prisão pelos ataques racistas cometidos contra o jogador. Além da pena, os envolvidos também receberam multas e outras sanções impostas pela Justiça espanhola. Após a condenação, o atacante se pronunciou nas redes sociais.
“Eu sou algoz de racistas. Essa primeira condenação penal da história da Espanha não é por mim. É por todos os pretos. Que os outros racistas tenham medo, vergonha e se escondam nas sombras”, escreveu.
Combate ao racismo
Além das denúncias públicas, o jogador também passou a atuar em iniciativas voltadas ao combate à discriminação racial. Recentemente, em parceria com o Instituto Vini Jr., o atacante anunciou a criação de um escritório de advocacia voltado ao apoio jurídico gratuito para vítimas de racismo e preconceito.
Segundo o atleta, a iniciativa busca fortalecer o combate à impunidade em casos de discriminação racial.
“13 de maio pra mim representa força, realização e compromisso com as minhas raízes. Inspirado na data, tenho a alegria de anunciar o Escritório Antirracista, numa tabela com o meu Instituto, em nome de uma nova geração consciente de que não está sozinha na luta por igualdade”, destacou.
O caso envolvendo Vinícius Júnior mostra como ataques racistas continuam sendo reproduzidos nas redes sociais sob a justificativa de humor ou entretenimento. Para especialistas, situações como essa reforçam a necessidade de discutir os limites entre liberdade de expressão, engajamento digital e a responsabilização de conteúdos que contribuem para a disseminação do preconceito racial.
Virginia Fonseca e Vini Jr.
Virginia Fonseca é uma das influenciadoras digitais mais populares do país, acumulando milhões de seguidores nas redes sociais e grande alcance em conteúdos de entretenimento, lifestyle e publicidade.
Já Vinícius Júnior nasceu em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e iniciou a trajetória no futebol nas categorias de base do Flamengo antes de ganhar projeção internacional defendendo o Real Madrid. Atualmente, o atacante é considerado um dos principais jogadores brasileiros da atualidade e também um dos principais nomes no combate ao racismo no esporte.
O relacionamento entre os dois ganhou destaque nas redes sociais nos últimos meses e chegou ao fim recentemente. Em publicação nas redes, Virginia afirmou que a separação aconteceu de forma respeitosa e pediu que o término fosse tratado como “uma página virada” na vida dos dois.
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