Dr Daniel Santos e a nova tentativa de ser o “candidato camaleão”, sem declarar de fato quem representa - Estado do Pará Online

Dr Daniel Santos e a nova tentativa de ser o “candidato camaleão”, sem declarar de fato quem representa

Da ruptura com os Barbalho à filiação ao Podemos, o caminho político de Daniel revela alianças cruzadas, recuos estratégicos e a tentativa de agradar todos os lados ao mesmo tempo

O cenário das eleições ao Governo do Pará finalmente começa a tomar forma e confirma o que já era esperado nos bastidores. Após meses de especulação, Daniel Santos saiu de cima do muro para ficar… em cima do muro? A filiação ao Podemos, somada à aproximação com o PL e à manutenção de pontes com o PSB, consolida uma estratégia clara: tentar ser o candidato de todos.

Na prática, o movimento é simples de entender. Ao migrar para um partido de centro-direita e flertar com nomes como Agatha Barra (PL), Éder Mauro (PL) e Zequinha Marinho (PL), Daniel tenta garantir o eleitorado da direita e da extrema-direita. Ao mesmo tempo, sua esposa, Alessandra Haber, negocia a migração para o PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin, como uma espécie de salvo-conduto político junto à base do governo Lula.

A pergunta que surge não é nova, mas agora ganha forma concreta: até quando essa conta fecha? Entenda o caminho até aqui, desde o rompimento com os Barbalhos até a iminente filiação ao Podemos.

O rompimento com os Barbalhos

Antes de qualquer articulação nacional, a origem desse cenário está dentro do próprio Pará. A relação entre Daniel Santos e o grupo do governador Helder Barbalho (MDB) não rompeu de forma repentina, ela foi se desgastando até se tornar insustentável.

Em um primeiro momento, Daniel orbitava o grupo político que hoje controla o governo estadual. Havia alinhamento institucional, diálogo e, principalmente, interesse mútuo. Mas à medida que o prefeito de Ananindeua ganhou musculatura eleitoral própria, com aprovação alta e projeção estadual, o que antes era parceria começou a virar concorrência.

O ponto de virada acontece quando Daniel deixa de ser apenas um gestor bem avaliado e passa a ser tratado como potencial candidato ao governo. A partir daí, o espaço político encolhe. Não há lugar, dentro do mesmo grupo, para dois projetos majoritários.

De um lado, o grupo Barbalho já trabalhava com seu próprio nome para a sucessão, com Hana Ghassan (MDB) começando a ser ventilada como continuidade do projeto. Do outro, Daniel entende que não há mais espaço para crescer dentro dessa engrenagem, e decide sair.

A decisão do prefeito de Ananindeua não foi fácil pois, ao romper com o grupo mais forte do estado, Daniel precisa construir rapidamente uma nova base política. E é aqui que começa o movimento que desemboca no cenário atual.

Nos próximos passos, o que se desenha não é uma candidatura ideológica, mas uma candidatura de sobrevivência política: alianças amplas, contraditórias e, em alguns casos, improváveis.

E é justamente isso que abre a próxima fase desse tabuleiro: a aproximação com a direita e o conflito direto com quem já ocupava esse espaço.

A entrada no campo da extrema-direita

Se o rompimento com Helder Barbalho foi o ponto de partida, o passo seguinte de Daniel foi inevitável: ocupar um espaço político que já tinha dono.

A partir do afastamento consolidado do grupo governista, Daniel começa a se aproximar de nomes ligados à direita e à extrema-direita no Pará. Esse movimento não acontece de forma pública de imediato, mas passa a ser ventilado nos bastidores e, aos poucos, confirmado por gestos políticos.

O problema é que esse campo já estava ocupado. O PL no Pará já tinha seu próprio projeto em curso, com nomes como Mário Couto e Éder Mauro orbitando a disputa majoritária. A chegada de Daniel não soma automaticamente; ela reorganiza e, principalmente, pressiona. É aqui que começa o primeiro grande ruído da pré-campanha.

Enquanto Daniel tenta se viabilizar como nome competitivo para o governo, ele passa a disputar espaço com quem já vinha construindo essa candidatura dentro da direita. Aqui a ideologia cai por terra e vira apenas uma disputa por protagonismo; e protagonismo, na política, não se divide.

O jogo duplo: PL de um lado e PSB de outro

É nesse contexto que Daniel aposta no que parece ser sua principal estratégia: não romper completamente com nenhum campo.

De um lado, intensifica a aproximação com o PL, flertando com figuras como Éder Mauro, Ágatha Barra, Zequinha Marinho, e com a possibilidade de composições eleitorais que garantam capilaridade e voto ideológico. De outro, evita romper de vez com o PSB, partido ao qual ainda está vinculado naquele momento e que integra o partido do vice-presigente Geraldo Alkimin, e, consequentemente, a base do governo federal.

A solução encontrada, apesar de funcional, é controversa: enquanto Daniel se movimenta em direção à direita, o nome de sua esposa, Alessandra Haber, é ventilado no PSB, partido de centro-esquerda.

Na prática, o casal passa a operar em dois campos políticos diferentes ao mesmo tempo. Nos bastidores, esse movimento é tratado como cálculo. Publicamente, ele é visto como contradição. E isso começa a gerar desgaste; porque, para a direita, Daniel ainda carrega vínculos com um partido ligado ao governo Lula. Para a esquerda, ele já está claramente dialogando com nomes da extrema-direita.

Daniel passa a ser, ao mesmo tempo, necessário e desconfortável para ambos os lados.

Mesmo com essas contradições, o nome de Daniel cresce. Pesquisas, articulações e a própria movimentação de bastidores passam a colocá-lo como um dos principais nomes na disputa pelo Governo do Pará. Ao lado de Hana Ghassan, o cenário começa a se consolidar em torno de poucos polos.

Filiação ao Podemos como solução

Daniel Santos decide se filiar ao Podemos em março de 2026. A decisão, confirmada pelo presidente do partido, não é aleatória. O partido oferece exatamente o que ele precisa naquele momento: um espaço viável para candidatura majoritária sem obrigá-lo a se alinhar completamente a um único campo.

Com o Podemos, Daniel não entra formalmente no PL, mas mantém a porta aberta. Ao mesmo tempo, se afasta institucionalmente do PSB, mas sem romper totalmente a ponte política construída. É a formalização do que já vinha acontecendo nos bastidores e junto com a filiação, surgem os primeiros desenhos de chapa.

Quem ficou de fora e quem pode reagir?

Toda articulação política tem custo; a entrada de Daniel nesse novo desenho pressiona diretamente nomes que já estavam no jogo. Mário Couto (PL), por exemplo, passa a disputar espaço dentro de um campo que agora tem mais um protagonista. Éder Mauro, que já é ventilado como pré-candidato ao senado também perde a possibilidade de protagonismo na disputa do executivo estadual.

Se antes a disputa poderia caminhar para um eixo mais ideológico, agora ela tende a se reorganizar em torno de rejeições e alianças circunstanciais. O risco: repetir os cenários das eleições de Belém e Santarém em 2024, onde o eleitor não escolhe quem quer, e sim quem rejeita menos.

O peso do “Anti-barbalhismo”

No fim, talvez a principal mudança dessa eleição não esteja nos partidos, mas no sentimento do eleitorado. O anti-barbalhismo cresce e isso muda a lógica da disputa, porque, diante de um cenário sem um nome forte da esquerda consolidado, a eleição pode deixar de ser uma disputa ideológica tradicional e passar a ser uma disputa de forças contra um grupo político dominante.

Daniel tenta se posicionar como esse contraponto, mas, ao tentar ser tudo ao mesmo tempo, corre o risco de não conquistar o título que há poucos meses, segundo a maioria das pesquisas eleitorais, já era seu.

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