Espanha cria mecanismo conjunto com a Igreja para indenizar vítimas de abusos sexuais - Estado do Pará Online

Espanha cria mecanismo conjunto com a Igreja para indenizar vítimas de abusos sexuais

Sistema prevê reparação financeira e simbólica para casos sem possibilidade de ação judicial

O governo espanhol e a Igreja Católica formalizaram um acordo para instituir um novo modelo de reparação às vítimas de abuso sexual cometido no âmbito eclesiástico. O mecanismo, considerado inédito no país, estabelece uma via alternativa para pessoas que não desejam recorrer diretamente às instâncias internas da Igreja ou que já não podem buscar reparação na Justiça.

Bispo Luis Argüello, presidente da CEE, ministro Félix Bolaños e Jesús Díaz Sariego, presidente da CONFER / Foto: Reprodução / X @felixbolanosg

A iniciativa envolve o Ministério da Presidência, Justiça e Relações Parlamentares, a Conferência Episcopal Espanhola e a Conferência Espanhola de Religiosos. Pelo modelo acordado, a indenização financeira será custeada pela própria Igreja, enquanto o Estado atuará como mediador do processo, por meio do Defensor do Povo, órgão responsável pela defesa dos direitos dos cidadãos na Espanha.

O sistema é voltado, sobretudo, a vítimas cujos casos prescreveram ou cujos agressores já morreram, impedindo qualquer responsabilização judicial. A proposta prevê a participação das vítimas tanto de forma individual quanto coletiva, por meio de associações representativas.

Em manifestação pública, o ministro Félix Bolaños afirmou que o acordo busca romper com décadas de silêncio e dar uma resposta concreta às vítimas. Segundo ele, o objetivo é garantir uma reparação “justa e integral”, reconhecendo a gravidade dos abusos e o impacto prolongado causado às pessoas afetadas.

Pelo procedimento definido, a vítima deverá apresentar o pedido a uma unidade específica do ministério, que ficará responsável por receber as solicitações, intermediar a comunicação entre as partes e encaminhar os casos ao Defensor do Povo. Caberá a esse órgão realizar a análise individualizada e formular uma proposta de resolução, que pode incluir reparação simbólica, restaurativa, espiritual e/ou financeira, de acordo com a vontade da vítima.

A proposta será então avaliada por uma comissão consultiva da Igreja, criada no âmbito do Plano de Indenização Integral às Vítimas de Abuso. Havendo consenso, a decisão se torna definitiva. Em caso de divergência, será acionada uma Comissão Conjunta, com participação de associações de vítimas, para tentar alcançar um acordo unânime. Persistindo o impasse, a decisão final caberá ao Defensor do Povo.

O prazo para apresentação dos pedidos será de um ano, contado a partir da assinatura do acordo, com possibilidade de prorrogação por igual período. O governo também se comprometeu a promover ajustes legais para garantir isenção fiscal às indenizações concedidas.

O texto estabelece ainda que, caso dioceses, institutos ou entidades religiosas não cumpram as medidas previstas, a Conferência Episcopal e a Conferência de Religiosos deverão assegurar a execução das reparações.

O acordo é resultado de negociações iniciadas após a aprovação, em abril de 2024, do plano de implementação do relatório do Defensor do Povo sobre abusos sexuais na Igreja Católica. Ao anunciar a medida, Bolaños destacou o papel das associações de vítimas, ressaltando que o novo sistema é fruto de uma mobilização que atravessou décadas em busca de reconhecimento e justiça.

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